Postagem Observatório

Scruton e a necessidade da direita brasileira de pensar na questão ambiental

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Sexta-feira da semana retrasada, escrevi um artigo em que defendi a necessidade da ainda infante direita brasileira em pensar, de maneira menos reativa e mais propositiva, a questão ambiental, tema que vem ganhando cada vez maior importância nas últimas décadas. A despeito de críticas de alguns leitores, o texto teve uma recepção razoavelmente positiva.

Na última quinta-feira, uma entrevista, publicada no site da Revista Época, chamou a minha atenção. A página em questão fez algumas perguntas a Roger Scruton, expoente vivo do pensamento conservador britânico. Entre outros assuntos, Scruton foi questionado sobre o pensamento do governo Bolsonaro, inclusive – e sobretudo – na questão ambiental (foram as quatro últimas perguntas, para ser mais exato). E as respostas do filósofo, de certa maneira, acabaram indo ao encontro do que apresentei em meu artigo.

Questionado se ele se sentia confortável com os posicionamentos do atual presidente, Scruton disse que se preocupa com suas políticas ambientais e não é simpático a esse aspecto dele, mas aprova "seu empreendedorismo, o modo como ele quer que os brasileiros usem suas energias para melhorar as próprias condições e a economia". Em seguida ele responde acerca do que seria uma abordagem conservadora em relação ao meio ambiente:

"É dizer que o meio ambiente é nossa responsabilidade e que precisamos, como cidadãos, nos juntar para preservá-lo. Não devemos deixar ao Estado, ou a multinacionais, nem nada disso, embora sejam importantes. Um dos grandes problemas ambientais é que tentamos afastar o problema de nós, nós o jogamos para o Estado, achando que ele vai tomar conta disso, e o Estado não faz isso."

O ponto principal desta fala é o foco no micro: embora ele mesmo diga que a participação do Estado e de grandes corporações na preservação ambiental é importante, ele deixa bem claro que as principais ações na área precisam ser de responsabilidade local. Trata-se da principal diferença em relação à esquerda, que, de via de regra, acaba tendo seu foco no macro, com as principais ações sendo centralizadas nas esferas mais altas do poder público.

Como os leitores verão nas respostas seguintes, Scruton defende um princípio de subsidiariedade na questão ambiental: as esferas maiores, tanto do poder público como da sociedade civil, podem e devem desempenhar seu papel a partir do momento em que a ação local não é mais suficiente para lidar com os desafios relacionados à área. Isso fica claro quando o filósofo britânico é questionado a respeito da Amazônia, que não se trata de algo tão próximo aos brasileiros:

"Esse é um grande problema que os brasileiros têm, e que também nos afeta, porque a Amazônia é muito importante para todo o planeta. Vocês têm de se unir a outras pessoas para fazer o possível para protegê-la. É um assunto da sociedade civil, não tanto questão do Estado. O Estado responderá se as pessoas mostrarem que se importam."

Apenas faço duas ressalvas ao posicionamento dele neste ponto: a primeira, é que dadas as próprias características da região, o papel e o raio de ação da sociedade civil em nível local é bastante limitado. Sendo assim, é um tanto temerário esperar a insuficiência desta para que o poder público aja, o que justifica, neste caso, uma pronta intervenção do Estado. Seria, portanto, uma subsidiariedade invertida.

A segunda, por sua vez, só se revelaria correta se o Estado se desenvolvesse como uma resposta às demandas da sociedade. Não é o caso do Brasil em que, quando ainda colônia portuguesa, a burocracia foi preexistente ao desenvolvimento da sociedade. Quem leu o Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen, entenderá o que estou dizendo.

Em seguida, questionado sobre o papel que o Estado tem que desempenhar, Scruton responde da seguinte maneira:

"Ele tem, quando é algo tão grande, porque eu e você não podemos ir até lá e cuidar da Amazônia. O Estado pode estabelecer instituições para monitorar e preservar, e aí por diante, algo que todos os Estados fazem. Sempre há parques nacionais. Minha visão é que deveria haver um acordo internacional para manter a Amazônia como um parque nacional brasileiro mantido por todos os países que têm interesse lá. Abordagens globais às vezes são necessárias, porque nem sempre é possível garantir uma abordagem nacional. Não há como limpar os oceanos, tampouco, se não tivermos uma abordagem global."

Trata-se de um ponto de vista que, guardadas as ressalvas feitas à resposta anterior, tendo a concordar. Por se tratar de um bioma transnacional, preservá-lo requererá um esforço conjunto de todos os países em que esse está contido, e promover o desenvolvimento sustentável das economias locais demandará o mesmo. Enfim, não me oponho a uma abordagem multilateral para a Amazônia, desde que esta seja, primeiramente, de caráter continental.

Enfim, salvo um ou outro ponto, a abordagem defendida por Scruton na questão ambiental vai exatamente ao encontro do que introduzi em meu artigo anterior: a direita brasileira precisa adotar uma visão propositiva a respeito da área, com foco nas ações locais e na subsidiariedade, requerendo a participação do poder público em nível municipal, regional e nacional conforme a necessidade e contando com a participação da sociedade civil e do setor empresarial. Afinal de contas, ainda que não tenhamos recebido o meio ambiente em ordem, em algum momento no passado ele esteve assim. E cabe a nós fazer o possível para causar o mínimo de impacto possível para mantê-lo assim.

E repito: ou a direita brasileira começa a levar a sério este assunto, ou a esquerda seguirá nadando de braçada. Até a próxima.