Postagem Observatório

Resultado das eleições israelenses deveria servir de alerta a Bolsonaro

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Ontem, como todos sabem, ocorreram eleições legislativas em Israel, a segunda deste ano, após o fracasso de Benjamin Netanyahu, atual premiê do país, em formar governo na esteira da apertada vitória de seu partido – o Likud – no pleito de abril sobre a coligação Azul e Branco, liderada por Benny Gantz e Yair Lapid. E, por enquanto, a apuração das urnas indica a derrota de Bibi, o que, a depender das longas negociações para se tentar formar governo, pode deixá-lo em sérios apuros, visto que o premiê enfrenta acusações de corrupção.

No entanto, não é o impasse eleitoral de Israel o centro de meu comentário por hoje. E sim os efeitos disso para a política externa brasileira sob o governo Jair Bolsonaro, executada pelo Ministro Ernesto Araújo. E uma derrota de Bibi nas urnas – o que parece estar cada vez mais provável, mesmo que saia uma grande coalizão entre o Likud e a coligação Azul e Branco – deveria servir de alerta para o presidente do Brasil, bem como seu chanceler.

Primeiramente, é preciso deixar claro que não me oponho a um estreitamento nas relações do Brasil com Israel e EUA, por exemplo. Muito pelo contrário, considero necessária e razoável com países com quem nos últimos anos, por razões ideológicas, mantínhamos relações, quando muito, protocolares, para não dizer hostis. Tendo em vista isso, uma correção de rumo é importante e necessária.

No entanto – e este é o segundo ponto –, algo que vejo como um equívoco do governo Bolsonaro em matéria de política externa é a vinculação deste estreitamento de laços aos mandatários de ocasião dos respectivos países. A aproximação do Brasil com Israel e EUA não está ocorrendo (tanto) em função de agendas que sejam de interesse mútuo, mas sim em função de simpatia ideológica a Benjamin Netanyahu e Donald Trump, bem como às suas agendas. Curiosamente, essa tática de relações internacionais baseadas em alinhamento ideológico foi adotada nos governos petistas, resultando em situações até mesmo constrangedoras.

Claro, longe de mim querer comparar Netanyahu e Trump com Chávez (então presidente da Venezuela, hoje falecido), Maduro (atual presidente e ditador do país), Ortega (ditador que governa a Nicarágua), Cristina Kirchner (ex-presidente da Argentina, e que voltará ao poder por lá por meio de Alberto Fernández) e o regime castrista cubano, isso só para citar exemplos da América Latina (fora a aproximação com o regime dos aiatolás iranianos e ditaduras africanas). O que quero dizer o vaivém político em outros países já seria motivo suficiente para uma postura mais cautelosa e pragmática de aproximação, evitando uma adesão automática às agendas internacionais dos líderes políticos destes.

Apenas para citar exemplos do curto período do governo Bolsonaro: a aproximação deste com a Argentina em função de Mauricio Macri, atual presidente, terá que ser revista, visto que ele, muito provavelmente, não será reeleito, dando lugar ao kirchnerista Alberto Fernández (a propósito, ambos já trocaram farpas). E Matteo Salvini, então vice-premiê da Itália, e outro líder político com quem Bolsonaro ensaiou aproximação, acabou fora do governo após ser derrotado em sua manobra para romper o governo e forçar novas eleições na terra da bota.

Nem mesmo a aproximação com os EUA é isenta de riscos. A despeito de eu acreditar que Trump acabará sendo reeleito no próximo ano, é preciso pensar na existente – mesmo que pequena – possibilidade de vitória de um candidato democrata em 2020. Uma adesão automática à agenda internacional norte-americana, sem ter em vista os interesses brasileiros, pode nos colocar em saia justa caso um Joe Biden – ou pior, um Bernie Sanders ou Elizabeth Warren – saia vencedor.

Ainda que eu considere que os termos da aproximação entre Brasil e Israel não sejam significativamente alterados com uma eventual ascensão de Benny Gantz ao posto de premiê, fica o alerta de que, lá e cá, o mesmo pêndulo que vai, volta. Cabe a Bolsonaro e a Araujo se atentarem a esse fator na modulação de sua política externa. Políticos vêm e vão, países ficam.