Postagem Observatório

Queimadas na Amazônia: o que é sensacionalismo e o que é fato

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Ontem, um fato chamou a atenção na imprensa e nas mídias sociais: em São Paulo, por volta das 15h, a chegada de uma frente fria fez o céu escurecer na capital paulista. Seria tão somente mais uma virada de tempo como tantas outras, não fosse o fato de que, devido à fumaça proveniente das queimadas do Centro-Oeste e da porção sul da Amazônia, o céu ficou ainda mais escuro.

Diante disso, muitos trataram de culpar o atual governo, bem como a política ambiental deste pelo assustador cenário durante a tarde da maior metrópole do país. Com direito àquelas frases de efeito que estamos cansados de ler e ouvir.

É preciso, porém, discernir, o que é fato e o que é mero sensacionalismo clickbait ou caçador de "likes" nessa história. E não, não é preciso concordar com a política (dá pra chamar assim?) ambiental do governo Bolsonaro. Eu mesmo já escrevi um artigo por aqui criticando o pensamento totalmente anacrônico a respeito. No entanto, mesmo para se criar narrativas, é preciso um mínimo de responsabilidade.

Primeiro, o fato - evidentemente preocupante: o número de queimadas no país é o maior em sete anos. Com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), são mais de 71 mil focos de incêndio, contra pouco mais de 39 mil no mesmo período do ano passado (aumento de 82%). O índice superou em 8% o antigo recorde, de mais de 66 mil focos em 2016. Mesmo levando em conta que entramos em 2019 com um El Niño, citado na matéria do G1 citada no último link, trata-se de algo que deveria deixar o atual governo em alerta.

No entanto, há outros fatos, não menos importantes. Um deles, público e notório, é que tanto o Centro-Oeste como a porção sul da Amazônia estão, neste momento, no período seco. Período este que, via de regra, vai de maio a setembro (ou início de outubro). E, como sempre ocorre, as queimadas se intensificam nesse período.

Outro fato: a própria matéria do G1 apresenta um mapa de focos de incêndio a partir das imagens de satélite feitas pelo Inpe. Há vários focos de queimadas não apenas no Brasil, mas também no Peru, na Bolívia, no Paraguai e no norte da Argentina. Bolsonaro é responsável pela política ambiental destes países, ora bolas?

Por fim, outro fato, também presente na matéria do G1: Alberto Setzer, pesquisador do Programa Queimadas do Inpe, disse que "a chegada da fumaça da região Norte ao Sudeste não é um fenômeno raro", inclusive apontando um caso similar - embora menos intenso.

No mais, que se façam críticas à política ambiental do governo Bolsonaro. Mas que sejam críticas justas, honestas e, sobretudo, amparadas em fatos. Há quem queira fazer sensacionalismo apenas com a intenção de obter cliques e likes nas redes sociais. Mas não é esse o meu papel. Até a próxima.