Postagem Observatório

Quando a grande imprensa erra mesmo tendo (fundo de) razão

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Não é novidade que a grande imprensa, em seus diferentes setores, tem se mostrado exímia em produzir análises estapafúrdias sobre os fatos - bem como se posicionar diante deles-nos últimos anos. O problema é quando essa, até quando está com alguma razão, consegue se posicionar da pior forma e pelo pior motivo possível.

Um exemplo disso foi o editorial de hoje do Estadão, que pede abertamente a demissão de Abraham Weintraub, atual Ministro da Educação. Intitulado "Linha vermelha", o texto apresenta alguns dos motivos para que o titular da pasta vá para a degola: uma gestão qualificada como "errática" e um comportamento inadequado para um ministro de Estado nas redes sociais, seu principal canal de comunicação.

Tudo bem, até entendo como razoáveis tais motivos para se criticar a atuação de Weintraub à frente do MEC. Eu, particularmente, não nutro muita simpatia pela sua gestão - prova disso foram alguns de meus primeiros textos para este site, como o de estreia, acerca dos contingenciamentos ocorridos em maio (estopim dos protestos ocorridos no dia 15 daquele mês), bem como um comentário a uma coluna publicada em A Gazeta sobre a situação (hoje, felizmente, solucionada).

Além disso, acredito que ele deveria perder menos tempo "mitando" no Twitter - um dos poucos pontos que tendo a concordar com o editorial -, o que acaba tirando o foco até mesmo de propostas boas para a sua área, como o Future-se (cujo principal trunfo é reduzir a dependência das universidades e institutos federais do Orçamento da União). No entanto, não vejo - ainda - motivos para mandá-lo embora. Até porque, pensando pela ótica de danos institucionais aventada no editorial, há outros ministros (muito) piores neste aspecto, logo, mais demissíveis que o Sr. Weintraub. Apenas para citar um nome, o Ricardo Salles, atual Ministro de Meio Ambiente, é um exemplo disso (ainda escreverei um comentário a respeito).

No entanto, o editorial, na hora de apresentar a "gota dágua" para justificar a demissão de Weintraub, resolve escolher o motivo mais esdrúxulo possível. Segue abaixo um trecho (grifos meus):

"[...] Mas até para os padrões do bolsonarismo – que estabeleceu novo patamar de insalubridade nas redes sociais – o ministro cruzou a linha vermelha.

No feriado da República, Abraham Weintraub postou-se a defender a monarquia na rede social. A Constituição não o proíbe de ter a opinião que for sobre as formas de governo. Em se tratando de um ministro de Estado, no entanto, manifestar predileção pela monarquia é, no mínimo, uma conduta inapropriada. Mas Weintraub foi além. Acometido por algo próximo de um "surto antirrepublicano", o ministro da Educação classificou como "infâmia" a proclamação de 15 de Novembro de 1889 e passou a desfiar uma série de aleivosias contra personagens da história brasileira ligadas ao movimento republicano."

Veja bem: a gota dágua que justifica fazer a cabeça do Ministro Weintraub rolar não foi seus altos e baixos - mais baixos que altos, convenhamos - em sua gestão, muito menos sua postura de aluno de quinta série nas redes sociais, mas? Por criticar a Proclamação da República! Mais ainda: por criticar a Proclamação da República baseado em fatos que, claramente, evidenciam o caráter golpista, oligárquico e antipopular do movimento que levou o Império do Brasil ao fim.

Ou o Estadão negará que o movimento que levou à queda da monarquia foi um golpe - mais além, um golpe militar? Ou negará que o movimento, longe de ter apoio popular, era endossado sobretudo por ricos fazendeiros ressentidos com o fim da escravidão no Brasil? Ou ainda negará que o fruto imediato desse golpe foi um sistema político instável e que logo se degenerou em um regime autoritário - também conhecido como "República da Espada"? E que, volta e meia, ao longo de 130 anos, essa degeneração se repetiu ou quase se repetiu? Não atoa tivemos várias constituições e moedas diferentes nesse meio-tempo.

Enfim, até quando acerta nossa grande imprensa erra. E erra feio. Capaz até de eu nutrir mais simpatia do Sr. Weintraub depois dessa.