Postagem Observatório
André Assi Barreto
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Pessoas de direita viram esquerdistas?

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É lugar comum de certos debates que conservadores citem nomes de intelectuais que um dia foram militantes de esquerda, esquerdistas ou que flertaram abertamente com a esquerda e se tornaram conservadores e, muitas vezes, sonoros militantes anti-esquerda. Os exemplos não são poucos e, normalmente, o calibre intelectual do "convertido" é elevado: Eric Voegelin, Thomas Sowell, Olavo de Carvalho, Paulo Francis, David Horowitz e tantos outros que escapam pela memória agora.

A literatura consagra um momento especial da conversão de uma coisa na outra, o ponto mesmo da inflexão, de "momento Kronstadt" – a figura de linguagem criada por Louies Fischer para designar a decisão pessoal que desloca nossa consciência moral, de um estado passivo de ex-comunismo a um anticomunismo atuante. É mais que apenas a apostasia, mas é a descoberta da necessidade de combater a antiga religião civil. Os pontos que gostaria de erigir a especular eventual motivação são: existem tantas conversões e do mesmo peso da direita para a esquerda? Existe um "momento Kronstadt" da esquerda?

Aparentemente, não. Não existem na mesma proporção nem no mesmo calibre. O que já é um fato interessante por si só e mais ainda é a especulação sobre as motivações. Em conversas, amigos citaram casos que se aproximam disso, como dom Helder Camara ou Otto Maria Carpeaux, exemplos de quem teve uma formação à direita e, ao longo da vida, migraram para posições mais à esquerda. Mas por que será que os casos de viradas à esquerda são mais escassos?

Não parece haver resposta definitiva. Uma mais genérica e simples seria simplesmente que a cosmovisão da esquerda é falsa e, portanto, a tendência natural de gente intelectualmente honesta que conduza alguma investigação racional é, de fato, a migração de posição. Aos racionais, porém intelectualmente desonestos, resta a dissonância cognitiva. Outra, mais interessante, mas que carece de pesquisa aprofundada seria dizer que, ao notarmos a prevalência dos posicionamentos de esquerda nos meios ditos culturais, por razões simplesmente matemáticas, é natural que exista mais gentes que migram da esquerda para a direita do que o contrário. Um tópico de "sociologia da ciência política" que certamente vale a investigação.

Fato é que, nas palavras do citado Fischer, o comunismo – e aqui podemos estender a palavra para designar a esquerda como um todo – é um Deus que falhou. E falhou para muitos, a ponto das fileiras dos apostatas e dos convertidos ser grande o suficiente para fazer valer a pena a especulação sobre suas motivações.