Postagem Observatório
Sileno Cezar Guimarães
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Pai

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Para ele - aos menos comigo - tudo era assim. Fosse qual fosse a situação, sempre tinha algo engraçado para adoçar as coisas. Se eu tossia, vinha logo com a piada entre pai e filho, em voz alta e tom fingindo autoridade, que me fazia beber a colherada do remédio ruim, só para ouvi-lo gritar:

- "VOCÊ TOSSIU??? TOME BROMIL, SEU IMBECIL!!! "

Não sei se essa marca de xarope existe ainda, se estou dando um "jabá" ao fabricante, como dizem no jargão publicitário, mas me reservo esse pequeno direito, por tratar-se de algo que faz parte da infância dele, pois era exatamente a mesma piada que meu avô, o pai dele também fazia, quando era ´pequeno, avacalhando com a antiga propaganda afixada nas velhas Pharmácias de Manhuaçu, no interior de Minas...

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Tive uma infância feliz, nada de vitimismos aqui...Bem cuidado e cercado de todos os carinhos e atenções maternos, paternos e até da babá Genária que cuidou de mim com todo o carinho desde que vim ao mundo, ainda assim, contraí aos 4 ou 5 anos, uma gastroenterite bacteriana acidental, por alguma mosca varejeira que acaso tenha pousado em algum bico ou coisa parecida – Em que pese o obsessivo desvelo da babá Gegê com tudo que me cercava - e acabei internado em um bom hospital da capital.

Muito franzino, de tez clara e veias muito fininhas, a zelosa enfermeira teve dificuldades em achar o lugar de colocar o soro e nunca me esqueci dele (meu pai) sentado ao lado da cama, segurando meu pé a noite toda, para que em meu sono agitado a agulha não escapasse, perdendo aquela preciosa veia que rutilava na alvura de minha pele fininha.

De repente, como num passe de mágica, me vi todo empolgado, juntando sílabas e lendo palavras por todo lado, daquilo que até então, me pareciam símbolos indecifráveis e logo, ainda rabiscando meus primeiros garranchos em um caderninho de caligrafia, meu melhor amigo dividia comigo a alegria intensa da leitura... E para melhorar-me o estilo das letrinhas porcamente traçadas, logo pegou uma folha de papel em branco e com sua caneta Cross de ouro, escreveu com letra bem caprichada, uma das milhares de poesias que sabia de cor, do seu refinado arsenal literário.

Entregou-me a folha, com aquele olhar de cumplicidade que só ele tinha, com aquele sorriso maroto que sempre me convidava a aventuras inimagináveis, como se tudo na vida, por mais chato, fosse a melhor parte da grande brincadeira de viver.

Me disse em tom desafiador, quero ver se escreve com letra mais bonita do que a minha!

E a letra dele, por força do curso de caligrafia que fizera quando adolescente, era linda!

Estava ali, aquela poesia que eu adorava, de Guilherme de Almeida, que tantas vezes repetiu só para eu escutar, quase como uma música de ninar, na voz dele:

"Meu filho que é bom, que é inocente, quando comigo sai, luz que fascina, põe seus pezinhos brandamente, na marca dos meus pés na areia fina.

Ele segue meus passos inconsciente, mas uma estranha angústia me domina, e calcando meus pés mais fortemente, meu coração aos poucos se ilumina...

Sem saber o que tu me obrigas, filho amado, a percorrer a rota mais segura, ter mais firmeza a cada passo dado...

Nunca dirás, que horror na alma me vai, que te percas numa noite escura, por seguires os passos de teu pai."

Quantas outras eu não decorei com essa brincadeira?

Não era o método Piaget, nem Paulo Freire, ou seja, lá qual for, somente o bom, único e inimitável método Guimarães de ser.

Se algumas vezes ao longo do caminho, eu me perdi, pai... Foi por tentar outros caminhos diferentes.

Todas as vezes que me achei, pai, foi por seguir as pegadas que você deixou.

 FELIZ DIA DOS PAIS PARA TODOS!