Postagem Observatório
Fábio Costa Pereira
Ver conteúdo desse autor

Os especialistas e os dados!

Data da publicação:

Na madrugada de domingo para segunda-feira, em um conhecido bairro da cidade onde vivo (talvez o melhor termo fosse sobrevivo), notabilizado por sua intensa vida noturna, três jovens mulheres que retornavam para casa, de repente, não mais do que de repente, foram surpreendidas por um predador que estava à espreita, atrás de uma árvore, com uma arma de fogo em mãos, para cometer um assalto. Duas delas, ao avistarem o celerado, conseguiram empreender fuga. A terceira jovem, que não teve a mesma sorte, foi alvejada fatalmente. Desfalecida ao solo, por conta da cupidez do hediondo criminoso, a jovem deu os seus últimos suspiros e morreu. Aquela jovem, com toda uma vida de sonhos e aspirações pela frente, teve a sua trajetória de vida abreviada para que um "cidadão em conflito com a lei" , eufemismo empregado para nominar bandidos, satisfizesse as suas necessidades materiais sem maiores dissabores. 

E a questão básica que nos invade quando uma vida é perdida em idênticas circunstâncias, é o por quê? O que leva um criminoso, friamente, para obter um bem material , tirar a vida de alguém? A resposta, por mais dura que seja de se assimilar, é ao mesmo tempo simples e revoltante: a impunidade! Nas palavras do Desembargador paulista Edson Brandão, vivemos sob a égide de um sistema penal fake

A relação de custo e benefício entre o praticar e o não praticar crimes, infelizmente, em nosso país, pende favoravelmente para o segundo vetor.

Banner(1).png

A incapacidade do Estado prevenir crimes, elucidar os cometidos, prender os autores dos ilícitos e os manter presos, reforça, cada vez mais, naqueles cuja vida alheia pouco importa, carentes de empatias e freios inibitórios, a certeza de que ingressar e se manter na senda criminosa não têm maiores consequências.

No caso do latrocínio que narrei, no dia seguinte ao cruel Crime praticado, como não poderia deixar de ser, os "especialistas" em segurança pública que abundam em nosso país, passaram a dar as suas impressões doutorais sobre os acontecimentos. Em uma delas, talvez a mais criativa em minha opinião, reverberada em veículo de comunicação que conta com grande audiência em meu Estado, o especialista sustentou, modo sutil,  que uma das causas do crescimento da criminalidade é a ausência de transparência nos dados relativos à Segurança Pública. Segundo o quanto veiculado, a não divulgação dos indicadores de criminalidade, dos locais onde recorrentemente os crimes ocorrem e quantas abordagens a polícia fez, impede que a população saiba das nuances criminais de cada região, mostre caminhos a seguir e cobre providências do poder público.

A reportagem vai mais adiante, dá a entender que a pregada transparência está vinculada, umbilicalmente, ao sucesso no combate eficaz à criminalidade. Com o devido respeito, ledo engano. O sucesso ao combate ao Crime diz respeito, antes de tudo, na correção dos pêndulos da balança que a pouco referi: o prato no qual sopesados os custos da ação criminosa deve ser muito mais pesado do que aquele onde apostos os seus benefícios. Nova York, citada pelo autor da reportagem como exemplo de transparência, conseguiu mudar o cenário de insegurança pública combatendo, na justa medida, todo e qualquer ilícito, do mais ao menos grave, e, para o terror de nossos especialistas, encarcerando muita gente, tendência nos EUA desde o início dos anos 70. Lá, ao "superencarceramento", seguiu-se o decréscimo constante da criminalidade.  A publicização dos dados relativos ao combate ao Crime, antes de tudo, serviu para prestar contas do que foi feito com sucesso. Antes de causa, foi consequência.

Aliás , no que diz respeito à transparência dos dados relativos à Segurança Pública, no sentido de indicação dos "pontos quentes", dos padrões de expressão da criminalidade, das vítimas preferenciais, dos objetos cobiçados e dos horários recorrentes em que os crimes ocorrem, a divulgação destes indicadores, no mais das vezes, é contraindicada. 

Explico: estes dados não passam de fotografias do passado, muito embora possam indicar tendências e padrões, refletem, a princípio, apenas o que aconteceu. A sua divulgação, de forma pura e simples, poderia dar a falsa percepção na população de que há lugares seguros que podem ser frequentados sem maiores problemas, quando, em realidade, sabe-se que a criminalidade, quando confrontada com eficiência, tende a migrar de lugar em muitas oportunidades e mudar a sua forma de atuação em outras. Assim, o que interessaria à população, para o fim de se salvaguardar de delinquentes, seriam as análises criminais feitas a partir dos dados trabalhados. No entanto, se o poder público divulgasse as suas análises, bases de seus planejamentos estratégicos, táticos e operacionais , estaria prestando um desserviço para a comunidade, pois, além das pessoas de bem, os criminosos saberiam o que o poder público sabe, podendo, mais facilmente, adaptar as suas ações ilícitas para a obtenção de sucesso.

Toda a vez que me deparo com análises como a que referi, questiono-me: quando os nossos especialistas entenderão que o combate ao Crime, antes de tudo, deve principiar com o enfrentamento aos criminosos? 

Até lá, que Deus nos proteja.

E que Deus tenha piedade de nós!