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  • Marcos Lannes Jr.

O antibolsonarismo é infalseável


Não sei se eu poderia me considerar - ou ser considerado - um “bolsonarista”. Tampouco sou alguém que considera o bolsonarismo o ar puro do Everest em meio ao show de peidos que se tornou a política brasileira - vide algumas críticas recentes que fiz ao governo e a alguns de seus ministros. Não obstante, acredito, sim, que Bolsonaro, com todos seus defeitos e idiossincrasias, era a melhor opção possível, se levarmos em conta a viabilidade política de cada um de mais de uma dezena de candidatos à presidente que tínhamos em 2018.

No entanto, a despeito de minhas críticas ao governo, desde o começo deste, no ano passado, a oposição - seja a de esquerda, seja a de alguns setores liberais - optou por uma postura que irei chamar de “crítica pela crítica”: não importa o mérito da medida do governo e/ou o quanto ela pode ter de erro (ou acerto), o que importa é bater o bumbo dizendo que é contra Bolsonaro e sua gestão. No caso dos liberais, vale até se opor a medidas que, fossem apoiadas por um Alckmin ou Amoêdo da vida, seriam aplaudidas.

Deixo claro que os meus dizeres não são uma novidade. Em maio do ano passado, André Assi Barreto, que já foi um dos colegas neste espaço, escreveu em seu blog pessoal no Medium um comentário sobre a “lógica” de alguns vaticínios proferidos pelos analistas que, via de regra, tem se identificado como oposição ao atual governo. Uma coisa em comum é que estes acabam cantando vitória, quer o resultado confirme, quer o resultado refute totalmente o que foi dito. E veja bem, eles são pagos - em alguns casos, bem pagos - para isso. Vai entender…

Um exemplo recente disso tem sido o caso do miliciano Adriano, ex-policial militar do Rio de Janeiro - e que chegou a ser suspeito do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) - morto em uma controversa operação policial na Bahia. Quando Bolsonaro mantinha relativa discrição e silêncio sobre o caso, para alguns desses analistas era sinal de que o clã cujo Presidente da República é o patriarca tinha “rabo preso” com ele (falarei a respeito mais adiante); agora, com as crescentes suspeitas de que ocorreram falhas grosseiras na operação - na melhor das hipóteses - ou mesmo de tortura seguida de execução - na pior delas e com a defesa por parte do presidente de uma “perícia independente” para dar mais luz ao caso, os mesmos analistas - vejam bem - também falam que ele tem rabo preso! Assim fica fácil fazer a análise dos fatos, não é?

E veja bem, isso não significa que estou negando a proximidade do clã Bolsonaro com integrantes de milícias - hoje, junto com o tráfico de drogas, um dos cânceres que assolam o Rio em matéria de segurança pública naquele estado. Particularmente, trata-se de uma ligação deveras incômoda (inclusive com alguns integrantes envolvidos na morte de Marielle), mesmo considerando que a política no estado fluminense consegue ser mais suja que água da Cedae contaminada com geosmina e detergente industrial.

No entanto, isso não necessariamente quer dizer que haja envolvimento do clã do nosso chefe de Estado e de Governo na morte da vereadora - a propósito, o áudio que levantou suspeitas na direção oposta, no final das contas, não era o do funcionário da portaria que mencionara o presidente. A propósito, um simples questionamento sobre a ideia de um pré-candidato presidencial se envolver na morte de uma vereadora cuja relevância política fora da cidade do Rio de Janeiro era nula - até mesmo para a própria esquerda que vê seu cadáver como algo tão icônico quanto o mausoléu de Lênin já deveria ser suficiente para reduzir essa possibilidade ao campo das teorias conspiratórias.

E, como disse antes, esse é apenas um de vários exemplos de “análises” cujos responsáveis por ela podem cantar vitória em todos os multiversos possíveis. Um outro exemplo, ainda sobre o caso do miliciano morto: se antes Bolsonaro defendia uma ação enérgica de polícia, ele era criticado; agora, quando Bolsonaro quer esclarecimentos sobre o ocorrido - veja bem, ele também é criticado! Percebe-se que os fatos, há um bocado de tempo, pouco importam.

Enfim, se recorrermos ao conceito de falseabilidade - sistematizado pelo filósofo austríaco de Karl Popper e que defende que uma teoria só pode ser considerada científica se for possível provar sua falsidade - podemos afirmar, praticamente sem sombra de dúvida: o antibolsonarismo é infalseável. E, ainda que alguns de seus seguidores digam estar no “vale cinzento da razão”, não são mais racionais que os bolsonaristas.

Foto por Antonio Cruz/ Agência Brasil


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