Postagem Observatório

O 11 de Setembro e as apoteoses do mal

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Há exatos dezoito anos, eu estava em minha casa, pronto para retornar ao colégio após uma semana doente em casa. Seria um dia como outro qualquer: assistir a um punhado de desenhos pela manhã e, próximo ao meio-dia, tomar banho e almoçar para assistir a mais um dia de aula. Seria. Por volta de 09h45min, minha mãe me chama a atenção para acompanhar o Plantão da Globo, para ver a notícia de um avião que tinha se chocado contra uma das torres do World Trade Center – também conhecidas por Torres Gêmeas – em Nova York, nos EUA. Uma notícia que, por si só, já seria muito trágica.

No entanto, por volta das 10h, o que já era trágico tomaria proporções ainda mais espantosas: um avião chocou-se contra outra das Torres Gêmeas. Em seguida, outro chocou-se contra o Pentágono, em Washington, a capital. E outro, provavelmente indo em direção à Casa Branca, acabou caindo na Pensilvânia. E, nesse meio-tempo, a queda das Torres e o colapso de parte da estrutura do Pentágono. Não era um acidente. Muito menos a sucessão de vários. Era um atentado terrorista, o maior já ocorrido em solo norte-americano. Cerca de três mil pessoas teriam suas vidas ceifadas.

À tarde, fui à escola. E o tema em discussão, seja entre colegas de sala, professores e demais funcionários, não podia ser outro. As pessoas buscavam explicações para algo tão abjeto e sádico. Como seres humanos, desde o pecado original que levou Adão e Eva a serem expulsos do Éden (para aqueles que compartilham da cosmovisão judaica ou cristã), tentamos explicar o mal, sobretudo quando ele se manifesta de forma apoteótica. Mas não conseguimos. Gostemos ou não, queiramos ou não, o mal nunca se explica. Pelo menos não de maneira satisfatória.

Nos dias e semanas seguintes, iríamos nos familiarizar com nomes de lugares, pessoas e grupos, até então, pouco conhecidos do público: Al-Qaeda, o grupo terrorista que planejou os ataques; Osama Bin Laden, o líder da organização e mentor-mor dos atos; Afeganistão, país que era o reduto de Bin Laden e da Al-Qaeda; Taleban, um grupo fundamentalista islâmico regional que deu suporte a Al-Qaeda; entre outros.

E, nos meses e anos seguintes, viria a guerra no Afeganistão, a caçada a Bin Laden, o "Eixo do Mal" de George W. Bush (então presidente dos EUA), a guerra no Iraque – que durou muito mais que o esperado, a despeito do discurso otimista de Bush –, uma crise econômica que seria a pior desde o crash de 1929, a eleição de Barack Obama, a morte de Bin Laden, o fim da guerra no Iraque, a "Primavera Árabe", as guerras civis na Líbia e na Síria, o declínio da Al-Qaeda e a subsequente ascensão do Estado Islâmico (ISIS ou Daesh), a eleição de Donald Trump... Uma longa história que, nesse meio-tempo, foi pontuada por diversos ataques terroristas. Um lembrete de que, parafraseando uma frase bíblica, o mal é como um leão, que ruge buscando a quem possa devorar.

O 11 de Setembro marcou o surgimento de uma nova etapa na história. O período de relativa paz, prosperidade econômica e estabilidade política prometido com o fim da Guerra Fria deu lugar a um período marcado por um novo formato de guerra, em que o inimigo poderia estar em qualquer lugar e atacar a qualquer momento, com uma economia que, volta e meia, soluça e que mesmo nos países desenvolvidos a estabilidade política e institucional não está tão garantida como parece estar. Isso sem prejuízo do surgimento de um estado de vigilância permanente, que tomou conta de boa parte dos governos e cidadãos no mundo ocidental.

E, como frisado no título e em um dos parágrafos, o 11 de Setembro foi uma das apoteoses do mal. Digo "uma" porque, em muitos momentos, o mal se manifesta desta maneira: com requintes de crueldade, pelos motivos mais fúteis e torpes e/ou buscando o maior número de vítimas, de preferência espetacularizando o sofrimento delas (os degolamentos promovidos pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque que o digam). O século XX teve exemplos notórios dessas apoteoses: as duas Grandes Guerras, a Revolução Russa, o Holodomor, o Holocausto, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, as revoluções socialistas e golpes militares ocorridos sob o contexto da Guerra Fria, as guerras civis da África, os genocídios na Bósnia e em Ruanda... Os exemplos são numerosos.

Não obstante, não deixa de ser fato de que a data de hoje, em que os ataques terroristas ocorridos contra as Torres Gêmeas e o Pentágono completam a sua "maioridade", foi a apoteose do mal que, de fato, deu início ao século XXI. E nós gostaríamos que isso nunca mais ocorresse. Contudo, enquanto Jesus não voltar a esta terra e (re) estabelecer seu Reino eterno – e sim, como cristão, creio nisso – sabemos muito bem que apoteoses iguais ou mesmo piores poderão acontecer. Cabem a nós ficarmos atentos e estar dispostos a combater o mal, quando preciso.