Postagem Observatório
André Assi Barreto
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Não, Boris Johnson e Elizabeth II não estão brincando de Charles I

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Qualquer observador atento do universo da política pode notar a harmonia geral de ideias e ações da esquerda no mundo todo. Uma vez que qualquer decisão democrática de seu desagrado ideológico aconteça, os canhotos erigem acusações sobre a ascensão do fascismo, do autoritarismo, vaticinam o fim da democracia e acusam algum tipo de "golpe". Foi assim com o impeachment de Dilma Rousseff, com a eleição de Donald Trump, de Bolsonaro e com o referendo que ocasionou o maior impasse político do Reino Unido em muitas décadas, o Brexit. Tudo isso, não deixemos de frisar, com a complacência de muitos aliados que não necessariamente estão no mesmo lado do espectro – liberais, isentões etc.

O mesmo se deu com a medida do primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson de "prorrogar o parlamento" com a chancela da Rainha Elizabeth II. Tudo absolutamente dentro da legalidade padrão do tradicional parlamentarismo inglês. Mas os militantes de extrema-esquerda que querem assegurar a democracia revertendo o resultado democrático do maior referendo da história do país levantaram a hashtag "#StopTheCoup" – "pare o golpe". O linguajar idêntico dá frio na espinha. A realidade, sempre ao nosso lado, não poderia deixar de reservar sua ironia: o mesmo Boris Johnson tentou convocar eleições gerais para o próximo dia 15 de outubro, mas os parlamentares de oposição que o acusam de golpista não aprovaram a decisão. Um dos raros casos de oposição que não quer eleição e de golpista ditador que convoca uma. Quem entende o mundo muito louco da esquerda radical?

O que ocorreu foi, simplesmente, que Boris Johnson solicitou à rainha Elizabeth II a descontinuidade da sessão parlamentar que se iniciaria em 5 de setembro, prorrogando (o "prorrogue" que aparece nas manchetes) o recesso legal do parlamento britânico, mantendo-o fechado até 14 de outubro – cerca de 15 dias antes do prazo final para a suposta saída do país da União Europeia, 31 de outubro.

A aceitação da solicitação por parte da Rainha mexeu com os ânimos pseudorepublicanos das esquerdas britânicas e globais. Como chefe de Estado, a Rainha simplesmente tinha de chancelar o pedido do primeiro-ministro. Sim, ela tem esse poder, mas sim, seria muito incomum se ela não fizesse. Ou seja, tudo dentro da normalidade, sem chicana antidemocrática, sem autoritarismo, sem fim da democracia, sem golpe, sem fantasma de Charles I, Stuart consagrado pela história como último dos absolutistas ingleses e que convocou e dissolveu o parlamento diversas vezes, rondando as cabeças de Johnson ou de Elizabeth I. Tudo o que temos, não importa o quanto a CNN, a Reuters e a GloboNews tentem te convencer do contrário, é só a mesma histeria e desprezo pela democracia e pelas pessoas comuns esquerdista de sempre.