Postagem Observatório

Guedes, AI-5, “baits” e os comentaristas de manchete

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Não vou negar que o governo Bolsonaro se envolveu em diversas polêmicas, muitas delas desnecessárias: seja envolvendo o próprio presidente, seus filhos ou seus ministros, sobretudo os do "núcleo duro" ideológico. Também não vou negar que, se fôssemos poupados de tais polêmicas, o país estaria em um curso melhor - muito embora eu não nego que tivemos avanços importantes neste primeiro ano de governo (sem falar na Reforma da Previdência, talvez a medida mais importante).

Entretanto, parece que a grande imprensa, não satisfeita com as polêmicas autoinflingidas pela atual gestão, resolve criá-las artificialmente: diversos jornais publicaram uma fala em que Paulo Guedes, Ministro da Economia, pondera sobre o adiamento das reformas tributária e administrativa diante do clima de tensão política em diversos países latino-americanos, e citou o "salve geral" de Lula no sentido de replicar os levantes ocorridos no Chile e na Bolívia. As manchetes, do Valor Econômico, da Folha e do Estadão, seguem abaixo:

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Evidentemente, diante de uma chamada que dá a entender que Guedes endossaria um AI-5, ou mesmo defenderia o mesmo, tal como Delfim Netto, o "czar" da economia no regime militar (detalhe: este não só assinou o ato de exceção, como disse que "o faria de novo" se as condições fossem as mesmas), a reação na imprensa e nas redes não poderia ser outra: a de ataques virulentos contra o atual titular da pasta da Economia. Seja por parte da esquerda - o que é hors concours -, seja por parte dos liberais que, insatisfeitos pelo fato de não ter um governo totalmente alinhado a eles, apoiam no máximo pontualmente o governo devido à necessária agenda de reformas.

Mas a questão é: Guedes realmente endossou o AI-5? Defendeu, por acaso?

Bastaria uma leitura do que foi, de fato, dito, para perceber que a matéria passa uma impressão totalmente diferente - quiçá, oposta - a da manchete. Transcrevo o trecho da "polêmica" fala (grifos meus):

"É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Este é o recado pra quem está ao vivo no Brasil inteiro. Sejam responsáveis, pratiquem a democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente? Levando o povo pra rua pra quebrar tudo. Isso é estúpido, é burro, não está à altura da nossa tradição democrática."

Percebam que não há nenhum juízo de valor por parte de Guedes sobre a famigerada medida de exceção aplicada no regime militar, até porque não é esse o mérito do ponto que ele quis abordar. Basicamente, a ideia dele foi dizer que extremismo de um lado levaria a extremismo de outro lado. Curiosamente, o grupo dos liberais mais críticos à polarização política - e que desejam o fim dela a qualquer custo - adota o mesmo raciocínio que está por trás da colocação do Ministro da Economia. E que, agora, estão se juntando ao coro de ataque a este.

É claro que alguns vão se questionar se a forma como ele fez tal declaração poderia ter sido mais cuidadosa, a fim de não dar margem a interpretações maldosas e até desonestas. Talvez, muito embora a meu ver não há nada na fala de Guedes que endosse medidas autoritárias, e que o raciocínio empregado pelo Ministro da Economia não só está correto como, repito, está totalmente em linha com o discurso "antipolarização" defendido por um campo do espectro político.

Mas talvez o problema não seja o que foi dito, e sim quem disse. Neste caso seria melhor questionar a boa fé dos críticos, em vez da provável ignorância. E, claro, tudo fica mais complicado.

Foto por José Cruz/ Agência Brasil