Postagem Observatório

Gaia é nossa deusa, e Greta, a sua profetisa

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As religiões possuem uma história que se confundem com a própria história da humanidade. Além de meio para (tentar) dar significado à vida, também são úteis para dar alguma coesão às sociedades, desde a Antiguidade até aos dias atuais. E em muitas dessas as religiões tiveram um papel central na organização e desenvolvimento das sociedades (os hebreus foram um exemplo notório disso, embora não sejam os únicos), inclusive na política, a despeito do fato de que, periodicamente, serviam de desculpa para endossar atrocidades contra seus povos ou outros.

Com a crescente secularização das sociedades, sobretudo no outrora cristão Ocidente, as religiões deixaram de ter esse protagonismo, passando a ter papel coadjuvante nas sociedades. Nos países europeus - a exceção, talvez, do Leste - a religião, no caso a cristã, possui importância residual, quando não é vista com desconfiança e mesmo hostilidade pelos políticos, imprensa ou formadores de opinião.

Isso, porém, não significa que as pessoas deixaram de dar significado à vida, ou que as sociedades não buscaram - ou tentaram buscar - outras formas de conseguir alguma coesão. Sobretudo após a Revolução Francesa, a política - as ideologias políticas, para ser mais exato - acabou, em parte, tomando o papel outrora reservado às religiões. À direita, à esquerda e ao centro, as ideologias possuem seus "deuses", seus "profetas", seus "sacerdotes", suas "tradições" e, a depender de sua evolução, o destino final dos indivíduos, a depender de ter seguido ou não os preceitos que sejam "corretos" de acordo com essas.

Mas, afinal de contas, o que isso tem que ver com o título? Como vocês, leitores, logo irão perceber, entre as "religiões políticas", uma delas é a ideologia ambientalista, que tomou a forma como a conhecemos a partir da segunda metade do século XX. E, como disse anteriormente, possui elementos que são característicos das religiões propriamente ditas.

O ambientalismo, atualmente, tem o seu "deus" - ou "deusa", se formos usar uma das alegorias mais comuns do meio - o planeta Terra. Ou, já utilizando essa alegoria, que ganhou fama com a teoria levantada pelo cientista inglês James Lovelock, Gaia, uma deusa primordial da mitologia grega. A Terra - ou Gaia - deve ser cuidada e protegida, não apenas para que, como abordei em meus artigos sobre a necessidade da direita brasileira de pensar na questão ambiental - ver aqui e aqui -, em respeito a nossos antepassados, possamos entregar um planeta em condições de ser usufruído por nossos filhos e netos (apenas friso que essa visão é coerente com a cosmovisão cristã), mas porque há algo virtuoso em si mesma, digno de ser venerado. Ainda que, para isso, tal como nos ritos religiosos, seja necessários sacrifícios.

E se há um "deus" - ou "deusa" - a ser venerado(a), a ideologia ambientalista também tem seus "profetas", que, de tempos em tempos, se levantam a fim de exortar, como nos tempos da Bíblia, as lideranças e o povo a fim de que se redimam de seus "pecados" contra Gaia e se arrependam, sob pena de sofrerem os juízos mais variados por parte da "mãe Terra".

No final de minha infância e ao longo de minha adolescência, Al Gore, vice-presidente dos EUA durante o governo de Bill Clinton e candidato democrata à presidente na controversa eleição presidencial de 2000 foi um desses mensageiros. Após ser derrotado no certame daquele ano, Gore resolveu dedicar sua vida à causa ambientalista, tendo como magnum opus de seu ministério "profético" o documentário Uma Verdade Inconveniente.

Uma das "profecias" mais lembradas de Gore, feitas em 2009, tem que ver com as calotas polares do Ártico, que, segundo ele, chegariam a um catastrófico desaparecimento no verão de 2014. Estamos em 2019, quase chegando em 2020 e, a despeito de a cobertura de gelo naquela região estar reduzida a mínimos históricos, nem de longe a ideia de atravessar o Polo Norte a bordo de um cruzeiro passou a ser viável.

E se formos avaliar o ministério "profético" de Gore, a situação fica ainda mais engraçada: enquanto ele pregava economia no consumo de energia elétrica como forma de enfrentar o aquecimento global e falava sobre o aumento do nível dos oceanos - o que está correto -, ele, um milionário - sua fortuna, em 2017, era avaliada em US$ 200 milhões (mudanças climáticas são um bom negócio) -, mantinha uma mansão em Nashville (capital do Tennessee) cujo consumo era 21 vezes superior ao de uma típica casa americana. Além de, claro, ter outra mansão na Califórnia, essa de frente para o mar - resta saber se seus netos poderão desfrutar dela, de acordo com as previsões catastróficas de Gore (se for igual a do gelo, vão sim). Percebe-se que Gore não coloca sua "pele em jogo", para citar uma expressão do ensaísta líbano-americano Nassim Nicholas Taleb.

Mas não é do ex-vice dos EUA que pretendo falar neste momento. Afinal, seu ministério "profético" já está perto do fim (ele já tem seus 71 anos), bem como o de seus contemporâneos. Mas Gaia precisa de alguém que fale por ela. Alguém que, de maneira corajosa e sem papas na língua, siga denunciando os desmandos das lideranças políticas e tire a sociedade da letargia em relação às mudanças climáticas, antes que a "mãe natureza" castigue severamente a humanidade com juízos como ondas de calor, secas, enchentes, entre outros terríveis castigos.

Sai o babyboomer americano Al Gore, entra a post-millennial sueca Greta Thunberg. A estudante, de 16 anos, ganhou notoriedade na imprensa e nas redes sociais por organizar as "greves pelo clima", movimentos que começaram em frente ao Riksdag (Parlamento da Suécia), em Estocolmo e, rapidamente, se espalharam para várias capitais europeias. Na última sexta-feira, o movimento ganhou alcance mundial, com protestos em mais de 150 países.

Seu ministério "profético" ganhou ares messiânicos com sua ida de veleiro à Cúpula do Clima da ONU, em Nova York - ela se recusou a ir de avião devido às emissões de carbono (mais tarde mostrarei que isso foi uma jogada de marketing à moda Al Gore) -, e após sua tão esperada chegada ao evento, proferiu ontem um discurso que chamou atenção pela eloquência e tom inflamado contra a classe política, discurso esse que recebeu toda a atenção - e admiração - da imprensa e das mídias sociais.

Antes disso, ainda na última quarta-feira, em discurso a membros do Congresso americano, disse que os EUA tinham muito ar-condicionado e pouca ciência. Implicando, claro, que haja um dilema entre uma coisa e outra. Ou que, em termos de produção científica, das 10 melhores universidades do mundo em produção científica, 3 são do país com "muito ar-condicionado".

Dito isso, vamos ao inflamado discurso da nova "profetisa" na Cúpula do Clima (a íntegra pode ser conferida no site oficial da ONU). Um dos trechos transcrevo abaixo (os grifos são meus):

"Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na minha escola, do outro lado do oceano.

E vocês vêm até nós, jovens, para pedir esperança. Como vocês ousam?

Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias. E ainda assim, eu tenho que dizer que sou uma das pessoas com mais sorte (nesta situação)."

Veja bem, estamos falando de uma adolescente que vive em um dos países de maior renda per capita e melhor desenvolvimento humano do mundo - a Suécia - e ela tem a audácia de falar que teve seus sonhos e sua infância roubadas. Bem, apenas deixo o convite para, caso resolva aparecer no Brasil, ela dê uma voltinha (sem qualquer programação prévia) em algum bairro de periferia. Aí sim ela vai saber o que, de fato, é uma infância roubada.

"Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno.

Como vocês se atrevem?"

Para começo de conversa, não se trata da primeira extinção em massa do planeta e nem será a última, independentemente de estarmos ou não contribuindo para isso - claro, implicando que nossa contribuição nesse sentido seja ruim em si mesma. Em segundo lugar, até mesmo as medidas necessárias (repito: necessárias) não só para buscar colocar um freio nas mudanças climáticas como as para adaptar as populações de diversos países à nova realidade neste aspecto - um "Extremistão" climático, para citar outra expressão de Taleb, precisa de - sim - dinheiro. A propósito, pouco se fala nestas últimas medidas. A impressão que se tem é na aposta na meta - pouco provável de cumprir - de brecar o aquecimento a 1,5 a 2ºC. Nem preciso falar na forma petulante que ela encerra esta primeira parte. Eu jamais me atreveria a dizer isso a minha mãe. E isso hoje, com meus 28 anos.

"A proposta de cortar as nossas emissões pela metade em 10 anos, apenas nos dá uma chance de 50% de ficar abaixo da marca de 1,5ºC e existe um risco de desencadear reações irreversíveis em cadeia que fogem do controle humano."

Sinto decepcionar os fãs do discurso da nova "profetisa" de Gaia, mas digo duas coisas a respeito deste ponto: a primeira, é que não cumpriremos nem os 2ºC, muito menos o 1,5ºC do acordo climático, mesmo se quiséssemos fazer isso abrindo mão dos trâmites business-as-usual em democracias liberais (talvez a Greta - ou quem está por trás dela - deveria ser mais claro nesse ponto); a segunda, é que, em um artigo publicado em uma matéria do Estadão de 2009 (sim, passaram-se dez anos), alguns dos efeitos das mudanças climáticas já eram irreversíveis e que, mesmo se parássemos de emitir carbono, o planeta seguiria aquecendo pelos próximos mil anos, pelo menos. Greta chegou atrasada.

"Vocês estão falhando conosco. Mas os jovens já começaram a entender sua traição.

Os olhos de uma geração futura inteira estão sobre vocês.

E se vocês escolherem fracassar. Eu lhes digo: nós jamais perdoaremos vocês.

Nós não vamos deixar vocês fazerem isso."

Neste ponto, a prepotência da ativista do clima transborda. Remonta aos discursos de líderes revolucionários dos anos 50 e 60. O desprezo a qualquer liderança previamente estabelecida e a ausência de qualquer disposição para conciliação são claros sinais desta parte. Mao Tsé-tung pensava de maneira semelhante. E nem preciso lembrar aos leitores das consequências de sua "Revolução Cultural" (spoiler: teve milhões de mortos).

Mas não é só de prepotência, arrogância e de ignorância econômica e mesmo política que se faz o discurso de Greta. É de hipocrisia também. Conforme matéria do portal Observador, a viagem de veleiro, em tese com menor pegada de carbono que se ela fizesse o mesmo que celebridades notáveis pelo seu discurso pelo clima como o Leonardo Di Caprio, que pega seu jatinho, envolveu dois aviões, para levar aos EUA a tripulação que traria o barco - este, por sinal, pertencente a um filho da Família Real de Mônaco - de volta. Ou seja, na prática, a viagem de veleiro de Greta teve maior pegada de carbono que se ela realmente fosse de avião.

Além disso, a ideia da "greve pelo clima" não necessariamente partiu dela, mas sim foi insuflada - e financiada - por multinacionais lideradas pelo empresário Ingmar Rentzhog (você pode conferir mais aqui), e tais protestos renderam milhões não só às empresas ecológicas deste magnata, como também à família Thunberg.

E não para por aí: além da ideia não ter partido dela - entre os ativistas, Bo Thoren já havia organizado primeiro protestos nesse sentido, sendo que Greta entrou nos protestos depois. Mais ainda: sua mãe, a cantora de ópera Malena Ernman, lançou um livro sobre a luta contra as alterações climáticas e o impacto disso sobre a família Thunberg, isso sem a editora saber dos vínculos da família com o empresário Ingmar Rentzhog.

Percebe-se que, tal como Al Gore, Greta Thunberg - ou melhor, quem a controla - não estão dispostos a colocar sua "pele em jogo". Pior: se Malala Yousafzai, ativista paquistanesa conhecida pela luta pelo direito à educação para as mulheres de seu país, a despeito de ter sido cooptada para causas politicamente corretas, pelo menos possui uma trajetória pessoal admirável, Greta sequer tem isso. É uma "ativista" fabricada sob medida, cuja idade e situação mental - ela possui síndrome de Asperger - estão servindo de escudo para um meio inescrupuloso de lobby e o enriquecimento de uma família.

Aceitar que a opinião pública seja pautada dessa maneira é rebaixar o já não alto nível de debate sobre como lidar com as mudanças climáticas. E se há pessoas dispostas a negar esse ponto, é justamente por discursos apocalípticos como os de Al Gore e Greta Thunberg.

No mais, na religião política ambientalista, o credo de hoje é "Gaia é nossa deusa, e Greta, a sua profetisa".