Postagem Observatório
Sileno Cezar Guimarães
Ver conteúdo desse autor

Éramos Doutores

Data da publicação:

Éramos Doutores, não pelo grau acadêmico que nos conferiam as universidades, mas pela missão que nos era dada pelo Defensor Perpétuo da jovem nação.

Honraria justa que, por analogia, acabaria se estendendo aos dedicados irmãos dos demais cursos clássicos, a medicina e a engenharia. Justa, porque primárias, essas profissões não são mais ou menos importantes que as demais, mas tão somente porque, delas surgem as civilizações; de alguém que as construa, erga seus edifícios em pedra, outros que curem os enfermos, braços e pernas quebradas no exercício árduo da construção e os advogados, aqueles que interpretam as leis naturais das relações daquele aglomerado de gente e emprestam a voz e o bom senso aos inúmeros e eternos construtores da nação.

Derivada do latim Docere, o que ensina, como nas antigas universidades do século XI, doutor, doktor, doctor,  docteur, dottore... é palavra que se encontra sem grande variação em todas as línguas ocidentais e axioma para quem deveria, dali em diante, assumir a responsabilidade de ensinar ao seu povo, os caminhos a seguir para a jovem potência continental que surgia no novo mundo.

Além do mais, previa, na lei que garantia a deferência, DE 11 DE AGOSTO DE 1827, conforme assinalava o   Conselheiro de Estado Visconde da cachoeira:

"para o Estado pudesse vir a desempenhar os empregos, para que são necessários os conhecimentos desta sciencia, que sob os princípios da moral publica, e particular, e de justiça universal, regula, e preserve regras praticas para todas as acções da vida social"...

De nossa outra potência irmã – os Estados Unidos - para além do gosto pela liberdade, que nas palavras de Ruy Barbosa, "A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é, sobretudo, o maior elemento de estabilidade das instituições", mostrava o limiar  de uma nova era, erguendo sua vitória sobre os direitos inalienáveis de seus cidadãos à vida e à busca da prosperidade, com o fundamento de que  "a verdadeira administração da justiça é o pilar mais firme de um bom governo", segundo seu pai fundador, George Washington.

Desta justificativa, nasceria de fonte límpida, o estatuto da OAB...

"A Falta de bons estatutos, e relaxa pratica dos que havia, produziu em Portugal péssimas consequência. Houve demasiados Bacharéis, que nada sabiam, e iam depois nos diversos empregos aprender rotinas cegas e uma jurisprudência casuística de arestos, sem jamais possuírem os princípios. E luzes desta sciencia(...)"

Entretanto, não vejo hoje, algo que se estenda para além da vergonha que nos humilha e cinge (nos nossos bottons de lapela) a derrocada da própria existência, quando na militância desenfreada, nos desautoriza da nossa razão de existir, tanto quanto os nazistas o faziam transformando a Estrela de Davi (o signo de orgulho do povo escolhido) no símbolo de humilhação dos judeus, costuradas às próprias vestes.

Hoje, descubro admirado, que de uma importante faculdade jesuíta de direito, restou-nos o ensino do direito constitucional cubano, em lugar do pátrio, sob aplausos histéricos da direção...

Sim, o direito constitucional de uma ditadura comunista, sangrenta e desumana, em lugar dos valores éticos que outrora permearam nosso direito.

É dali que surgirão os magistrados, procuradores e advogados de amanhã, às custas das boas intenções dos pais de hoje.

Não admira que certo senhor se refira aos colegas de profissão, como bestas ignorantes e prostitutas. Afinal, em Cuba, trata-se mesmo de profissão de pouca relevância, desprovida de sentido prático, quando se julga pelos tribunais da revolução.

"A mais triste das vidas e a mais triste das mortes são a vida e a morte do homem que não tem coragem de morrer pelo bem, quando por ele não possa viver." – Ruy Barbosa.