Postagem Observatório
Fábio Costa Pereira
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De volta à Nárnia

Data da publicação:

Há alguns anos, em homenagem ao grande escritor C.S Lewis, mais por diversão do que por qualquer outra coisa, diante da enxurrada de fatos bizarros que inundavam (e inundam) o meu cotidiano, resolvi começar a escrever sobre os episódios do dia a dia como se eles fossem ficcionais. Como não poderia deixar de ser, passei a narrar os muito estranhos acontecimentos que se passavam na minha onírica Nárnia banda B. Ao longo do tempo, crônica após crônica, percebi que, na singular Nárnia tropical, aquilo que deveria ser ficção é realidade, e o que  deveria ser absurdo é normal. Estas prévias advertências se fazem necessárias, pois inúmeros leitores não conhecem o meu passado como escritor de realismo fantástico (pouco ou quase nenhum), podendo acreditar que enlouqueci de vez.

Vamos, no entanto, ao assunto de hoje. Nárnia, como todos sabem, apesar de bela e abundante em riquezas, em termos culturais e morais, tem as suas prioridades invertidas. No reino, de Campinas verdejantes, donde os unicórnios pastam alegremente, criminosos são "heroicizados" e policiais demonizados. Em Nárnia, ainda, a culpa nunca é do criminoso, é sempre da sociedade injusta, da cultura da violência e da vítima que provocou os instintos mais selvagens de seu algoz. No reino, onde o encarcerar é considerado uma ultrajante violência contra o cidadão em  conflito com a lei, criminosos vagam tranquilamente pelas ruas exercendo livremente o seu ofício de ser criminoso, enquanto as pessoas honestas e trabalhadoras trancafiam-se em suas casas, verdadeiros presídios, de lá saindo, como se apenados em regime semiaberto o fossem, apenas para trabalhar.

Capítulo à parte na saga narniana, que merece especial atenção, é o de seus corruptos. Estes, quando na oposição, distantes do poder, apresentam-se como as almas mais honestas e incorruptíveis do universo, prometendo, ao chegarem aos postos de mando dentro da estrutura do reino, mundos e fundos para acabar com os crimes que fazem os cofres públicos sangrar em prejuízo de toda a população.

Os nossos unicórnios corruptos, eleitos por unicórnios que acreditam em promessas vazias, ao chegarem ao poder, estabelecem mecanismos de corrupção com requintes de barbárie. A pretexto de fazer o bem, justificam suas ações e exculpam os seus crimes.

O resultado, como não poderia deixar de ser, é o enriquecimento ilícito de alguns poucos unicórnios em detrimento de toda a sociedade narniana. O mais interessante, no entanto, é que estes corruptos são muitos singulares (alguns sequer conseguem articular o plural), pois, mesmo desmascarados, processados e condenados em diferentes instâncias, por dezenas de diferentes magistrados, vociferam ser vítimas de perseguição.

Em relação aos seus adversários, de outro lado, em virtude de fake News, muitas vezes por eles mesmos plantadas, imputam todo o peso da culpa e da reprimenda, usando o ódio que dizem abominar como instrumento de luta política.

Os corruptos de estimação narnianos, ademais, depois de muito se locupletarem, pensam, tão somente, em se locupletar muito mais, buscando manter, a todo o custo, o ciclo de enriquecimento e Impunidade que os trouxe até aqui e, se mantido, irá os projetar para o futuro. Como vocês podem perceber, Nárnia é realmente demais.

Ainda bem que é só ficcional!