Postagem Observatório

Como a grande imprensa perde (o que resta de) sua credibilidade em três atos

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Que a credibilidade da grande imprensa não está em seus melhores dias, isso não é nenhuma novidade. Não menos novidade é o deserto que esta atravessa em função da disrupção promovida pelas novas tecnologias e as redes sociais. No entanto, percebe-se que, infelizmente – ou felizmente, a depender do ponto de vista – esta parece fazer pouco para tentar reverter ou amenizar esse quadro. Pior: esta, por cegueira ideológica, mercadológica ou mesmo de maneira deliberada, resolve jogar fora o pouco que resta da confiança por parte do público.

Três atos, nesta semana – peço perdão caso eu os disponha fora da ordem cronológica – me chamaram particularmente a atenção nesse sentido: o primeiro, que foi tema de um comentário neste site, foi acerca de um editorial do Estadão, publicado na última terça-feira, que pedia a cabeça de Abraham Weintraub, Ministro da Educação. Como disse no texto em questão, não nutro simpatia pela gestão dele à frente da pasta, sobretudo pela sua ânsia de "mitar" nas redes sociais.

Contudo, o jornal, mesmo apresentando razões que, no conjunto da obra, poderiam justificar sua demissão (muito embora eu enxergue outros ministros muito mais demissíveis), resolve escolher a razão mais estúpida para isso: a crítica do ministro à Proclamação da República, ocorrida em 15 de novembro. O detalhe é o contexto do movimento – golpista, oligárquico e antipopular – é um consenso entre os principais historiadores. Tanto que nem o Estadão fez questão de negar. Vai entender.

Mas, evidentemente, esse não foi o único tiro no pé. Ontem mesmo, a Folha de S. Paulo fez questão de nos brindar com um tuite cuja chamada que distorce totalmente a realidade dos fatos, isso sem falar na má vontade ideológica logo no início: "Indicado por Eduardo Bolsonaro, empresário Gustavo Corrêa matou fã de Hickmann em hotel de Belo Horizonte após emboscada". Aliás, a Folha parece ter usado como manual um comercial veiculado na TV por eles mesmos em 1987, em que dizem que é possível contar um monte de mentiras dizendo apenas a verdade. No caso em questão, frases que, isoladamente, seriam verdadeiras – ou verossímeis – mas que, combinadas, produzem uma resultante totalmente falsa.

E, por fim, na esteira do acidente doméstico que hospitalizou em estado grave o apresentador Gugu Liberato, outra barrigada: o jornalista Reinaldo Azevedo, em um programa na rádio Band News FM, tratou de "matá-lo", antes mesmo de se preocupar em apurar o fato e se realmente ele tinha falecido (desmentido pela assessoria de Gugu), sem falar na completa ausência de consideração pela figura pública e pela família. Não que o jornalista (?!) tivesse com uma boa reputação, mas, pelo visto, achou um alçapão em seu fundo do poço moral.

Se você ainda não entendeu como – e por que – a grande imprensa perdeu boa parte de sua credibilidade, estes três atos explicam muito bem.