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Bolsonaro, Amazônia e Datafolha: lado A e lado B

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Ontem, um dos assuntos em discussão na mídia e nas redes sociais foi uma pesquisa do Datafolha que avaliou a performance do presidente Jair Bolsonaro no combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia, tema que ganhou bastante ênfase nos últimos dias, sobretudo com a repercussão internacional.

O interessante é que, dependendo de quem noticiasse a pesquisa, a chamada destacava um ou outro resultado das diferentes perguntas feitas no levantamento - o exemplo da própria Folha de S. Paulo, ao destacar a "legitimidade do interesse de estrangeiros" sobre a Amazônia, não me deixa mentir -, o que, tendo em vista que muitos dos leitores só se atentam para a manchete, favorece uma ou outra narrativa sobre a questão.

Portanto, até mesmo para avaliar os acertos e erros, tanto do governo, como dos demais agentes (políticos ou não) direta ou indiretamente envolvidos, é importante que se faça uma breve análise dos resultados desta pesquisa. E, sem delongas, vamos lá:

Lado A: retórica errática alimentou reprovação a Bolsonaro

O primeiro dado da pesquisa é bem claro e evidente: a maioria reprovou o desempenho de Bolsonaro ao lidar com a questão - 51% consideraram ruim ou péssima. Outros indicadores também vão de encontro às posições do presidente: dois em cada três entrevistados (66%) acreditam que o Brasil deveria aceitar dinheiro de outros países para combater o desmatamento na Amazônia (algo que, num primeiro momento, foi rejeitado); três em cada quatro entrevistados (76%) consideram - total ou parcialmente - legítimo o interesse de outros países na região por ela ser "importante para todo o planeta"; dois em cada três entrevistados (64%) concordam - total ou parcialmente - com a ponderação de que a crise internacional gerada pelas queimadas pode afastar investimentos no país; e que o presidente francês Emmanuel Macron, pivô dos embates com Bolsonaro, é mais bem visto que este para lidar com o tema.

Estes dados, bem como outros citados no Datafolha - vide último link acima - são sinais bem claros de que Bolsonaro precisa ajustar, ainda que por força das circunstâncias, seu discurso ambiental. O discurso que antagoniza ecologia e desenvolvimento, que soaria razoável no século XX, não faz sentido algum nos tempos atuais. Tampouco guerrear contra moinhos de vento, como acusar ONGs de terem causado os incêndios na Amazônia, ajudou o presidente na guerra de narrativas sobre o tema.

Outro fator que ajudou nesses indicadores negativos foi o tempo perdido: seja pelo governo, que poderia ter reagido de maneira mais rápida e enérgica a fim de lidar com os incidentes; seja pela comunicação do mesmo, que começou a falar a respeito disso somente quando os casos tomaram repercussão internacional, com risco de sanções econômicas e diplomáticas contra o país. Em política não existe vácuo.

Por fim, mas nem por isso menos importante, é preciso frisar que, a depender dos indicadores, a avaliação desfavorável a Bolsonaro também vem de eleitores do presidente. Ou seja, trata-se de um tema que transcende a atual divisão política do país.

Lado B: o "olho gordo" dos estrangeiros não pode ser desprezado

Se, por um lado, os indicadores são um termômetro de que o presidente "deu bobeira" na condução da crise ambiental envolvendo a Amazônia, por outro, os indicadores também deixam clara a desconfiança em relação ao interesse dos estrangeiros a respeito da região.

Ainda que, como dito no tópico anterior, o interesse de estrangeiros seja visto como "legítimo", três em cada cinco entrevistados (61%), concordam - total ou parcialmente - que o interesse de outros países na Amazônia é uma "desculpa para poder explorá-la". Além disso, três em cada quatro entrevistados (75%) também concordam - total ou parcialmente - que a Amazônia deva ser gerida pelo Brasil.

Esses dois indicadores, por ora, podem ajudar o presidente: ainda há apego - independente de visão política - dos brasileiros a um território que corresponde cerca de 40% do país que, fato público e notório, é rico não só em recursos naturais como também em recursos minerais. A retórica incendiária de Emmanuel Macron, presidente da França, também ajudou a reforçar essa percepção.

Cabe a Bolsonaro, agora, mostrar que o Estado brasileiro, ainda que conte com apoio de outros países, é soberano e capaz de cuidar da Amazônia e de lidar com seus problemas. Mas, para isso, é preciso ajustar o discurso ambiental, como dito no tópico anterior.