Postagem Observatório

Augusto Nunes agiu certo? Não. Glenn Greenwald é um coitadinho? Também não

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Semana passada, as mídias sociais, que nos últimos anos estão com os nervos à flor da pele por conta do clima de extrema polarização política dos últimos anos, entraram em polvorosa: o jornalista Augusto Nunes, que atua na Jovem Pan (JP), Veja e Record, trocou tapas com Glenn Greenwald, jornalista do The Intercept, notoriamente conhecido pela divulgação de vazamentos de conversas envolvendo juízes e procuradores da Operação Lava Jato (que recebeu o nome de "Vaza Jato"). O entrevero ocorreu durante a transmissão do programa Pânico da JP.

O episódio, como era de se esperar, rendeu intensa discussão: de um lado, aqueles que prestaram solidariedade ao Greenwald, atacado "covardemente" pelo jornalista da JP; do outro, aqueles que defenderam Nunes que, a despeito de ter partido para cima do "Verdevaldo", fez isso em reação aos insultos e dedos em riste do jornalista do Intercept. As duas posições, guardadas algumas ressalvas, reproduzem o derby ideológico que tomou conta do país.

Dito isso, vamos direto ao ponto do meu comentário de hoje: independente de quem começou o que, Augusto Nunes errou. Ponto. Isso sequer deveria ser discutido, muito embora possa se discutir fatores que atenuem a gravidade da conduta do jornalista da JP. O fato é que o Sr. Nunes, uma figura do jornalismo pela qual tenho grande respeito – desde os tempos de suas colunas na revista Veja – acabou "caindo na pilha" do Sr. Greenwald, ao ir às vias de fato.

Com sua atitude, Nunes deu ao jornalista do Intercept o que ele e sua patota queriam: um pretexto para se enxergar como "vítima". Acabou manchando desnecessariamente sua carreira por falta de "sangue frio", algo que, a meu ver, é necessário a qualquer profissão, mas especialmente à profissão de jornalista. É uma pena, mas, infelizmente, terá de arcar com as consequências do que fez, tal como William Waack arcou no episódio dos gracejos de cunho racista nos bastidores do Jornal da Globo. E, claro, tal como o ex-global, desejo que reflita e se reerga desse episódio.

Dito isso, vamos ao segundo ponto: Glenn Greenwald não é um herói, muito menos um coitadinho. Não estamos falando de um jornalista abnegado que, apenas por isso, tornou-se alvo de perseguição de "fascistóides" e que, agora foi agredido por um "fascistóide covarde" (pauso para perguntar: que governo "fascista" é esse que caminha para completar um ano sem conseguir implementar algo que se aproxime de um estado autoritário, quem dirá totalitário?). Estamos falando de alguém que divulgou material proveniente de interceptação ilegal de comunicações envolvendo agentes de Estado.

Em ocasiões semelhantes, Julian Assange e Edward Snowden tiveram que "picar a mula" para não serem presos pelos EUA por vazarem segredos de Estado (e, antes que me questionem: não, não considero nenhum dos dois como heróis, mas sim como criminosos, ainda que possam ter revelado práticas ilícitas do Estado norte-americano). Por muito menos que isso (e, neste caso, até poderíamos falar em censura) – uma reportagem falando dos "hábitos etílicos" do ex-presidente Lula – o então jornalista do The New York Times, Larry Rohter, foi "convidado" a sair do Brasil. Nada disso – nem mesmo algo parecido – aconteceu com o "Verdevaldo". Muito pelo contrário: desde a "Vaza Jato", ele recebeu o prestígio e o apoio do establishment político e midiático.

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Por fim, o terceiro e último ponto é a desfaçatez e a hipocrisia de alguns formadores de opinião sobre o assunto (pior ainda: quando isso acaba sendo endossado por outros formadores de opinião, sem que estes, pelo menos, fiquem de rosto corado). Um dos primeiros a prestar solidariedade ao jornalista do Intercept foi nada mais nada menos que Ciro Gomes, terceiro lugar na corrida presidencial de 2018. Quem o vê discursando contra "a violência praticada praticada por esse bandido do Augusto Nunes" nem imagina que, ano passado, em campanha, agrediu um jornalista em Boa Vista (RR). Ou que, ainda, deu um "pescotapa" em um vlogueiro. E isso porque citei apenas exemplos recentes. Uma breve pesquisa no Google ou YouTube mostra demonstrações mais antigas de sua ponderação e equilíbrio.

O mais cômico – ou tragicômico, se preferir – é ver jornalistas endossando tamanho teatro. Depois dessa, não duvidaria que retuitariam e compartilhariam vídeos do casal Nardoni contra a violência infantil. Pensando bem, é melhor nem dar ideia.

Minto: melhor dar ideia sim, até porque dessa forma perderão o pouco que resta de credibilidade.