Postagem Observatório

A Volta às Trevas?

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Nos últimos dias tivemos provas contundentes e definitivas do que o círculo criminoso que estava no poder até o impeachment da assombrosamente ruim dilma rousseff[1] – na prática, estavam no poder até um ano atrás – é capaz de fazer para recuperar esse poder. Por enquanto é esse o coroamento de um ano e meio de tentativas, de experiência acumulada. Não descansaram enquanto não livraram o pior bandido que a política brasileira já produziu e continuarão sem descanso. Libertar mais uma legião de bandidos foi apenas efeito colateral – que, se ajudar a desestabilizar a sociedade e o novo governo, tanto melhor.

Como uma catástrofe nunca vem sozinha, como consequência natural, já foi aventada a hipótese de se anular a lei da Ficha Limpa, de modo que o – liberto, mas ainda condenado e mais perigoso do que nunca – pior elemento da sociedade possa concorrer, e, com ele, vários outros criminosos. Não seria surpresa se isso também já estivesse nos planos.

Falando em surpresa, não que isso fosse uma: ficaram como baratas tontas até começar a entender o que de fato se passava (que perderam o monopólio do discurso e principalmente das ruas), tentando fazer colar alguma cascata sobre o presidente da República durante todo esse ano, não conseguiram nenhuma que colasse, mas nunca desistiram de tentar soltar seu líder, sempre de olho no objetivo maior: voltar ao comando. Como para esse último objetivo não era preciso apoio popular, bastavam as consciências compradas de sempre (que até então eram usadas com alguma moderação), era ali que se concentrava a ação – até porque o primeiro objetivo seria fortalecido com a concretização do segundo, como todos vimos com os discursos criminosos, irresponsáveis e repugnantes da jararaca liberta.

Eles não têm qualquer vestígio de escrúpulo. Eles ainda têm MUITO dinheiro e, apesar de terem perdido a chave do cofre do governo, outras fontes ainda existem e novas fontes surgem. Eles ainda têm praticamente toda a imprensa de focinho marrom a seu serviço, eles sustentaram por décadas uma classe artística que não passa de ativismo cultural e eles colocaram no stf aqueles que viriam a julgá-los.

Esses, que realmente vieram a julgá-los, além de também não terem lá muitos escrúpulos, não têm qualquer respeito pela opinião popular, investidos do poder e vivendo na bolha como vivem. Também não têm medo e não dão a menor importância ao respeito, quase veneração, que a população deveria ter por aquela corte. Em um misto de soberba potencializada e embriaguez pelo poder, ignoram os riscos quase iminentes de revolta popular e do que isso pode vir a custar à nação. Ignoram a volta à barbárie para a qual empurraram o país. Com mil hipérboles, em exercício de retórica jurídica recheada de firulas, sequer sabem que ao cidadão comum isso não interessa, interessa é que essa casta se mexeu para soltar bandidos, que jamais se mexeria em favor dele, cidadão comum, e que em breve sua vida estará pior. Não me refiro à decantada "sabedoria popular", na qual não acredito, mas à experiência de vida mesmo, coisa de gato escaldado.

A História ensina que isso não pode dar em boa coisa. Cabe dizer que, ainda que o resultado tenha sido um inacreditável 6x5, os 6 tornam suspeitos os 5 e, por consequência, toda a credibilidade da suprema instância da Justiça brasileira, porque o fato de existirem os 5 (mesmo que fossem apenas para jogo de cena) não anula que a hipótese absurda foi cogitada, existiu e venceu. O que, na prática, é outro 7x1.

Voltando ao objeto deste comentário, lula é um símbolo, não passa disso. É só um aglutinador, um catalisador da militância. Além de inelegível (por enquanto), está mais queimado que beirada de pizza. Mesmo que caia a Ficha Limpa, se ele for eleito prefeito de São Bernardo, será muito. Mas ainda é útil, em meio à comoção geral por sua soltura – a soltura do símbolo e a consequente criação de novas narrativas. Essa, e não outra, é a utilidade dele. Apoio popular ele não tem mais. Qualquer pessoa daquelas bem simples, não envolvida com política ou ideologia, mais preocupada em trabalhar e sobreviver, sabe disso. Quando o símbolo perder esse apelo junto à militância, quando esse apelo estiver desgastado – e o tempo cuidará disso – poderá ser descartado, e os reais donos do poder, o poder por trás do poder (chamam isso de deep state), também sabem e se encarregarão de se livrar do incômodo, o que podem fazer simplesmente ordenando a desconstrução do "mito" lula. A História ensina isso também.

Eu considerava que o próprio lula sabia disso e também sabe que todos sabem que ele é um arquivo ambulante e que sobretudo é boquirroto, então inventaria uma desculpa para não sair da confortável cadeia em que estava, mas a necessidade de a esquerca revolucionária ter seu "mito" nas ruas foi mais forte. Espero apenas que tenham errado no timing.

Essa movimentação toda, da forma que foi executada tem um sentido e um sentido só: a retomada do poder, dessa vez pela forma do deboche e do desrespeito, posto que todas as manobras anteriores não funcionaram. Eis porque perde importância o que quer que tenham feito os filhos do presidente, um ou outro ministro ou mesmo algum destempero do próprio presidente. Não se trata nem de longe de perdoar mazelas ou ter "políticos de estimação", menos ainda de gostar ou não gostar dele: trata-se de saber que Bolsonaro e seu governo são a única barreira que nos protege da volta definitiva da barbárie. Importa é que o inimigo (é assim que eles tratam quem se opõe a eles; tratemo-los da mesma maneira) já entendeu qual foi o caminhão que o atropelou, não está morto, tem estratégia, tem grana, tem apoio e tem sede de vingança. Quem achou que seria fácil é apenas ingênuo.

Mas dessa vez o roteiro não foi exatamente como nos anos anteriores, quando a esquerda revolucionária agia enquanto conservadores, liberais e qualquer coisa que possa ser considerada "direita" em aspecto mais amplo, trabalhava, dormia e contava moscas. Daí a importância fundamental de "ajudar" no processo de conscientização das massas: que eles não caiam no truque que está sendo armado bem embaixo de nossos narizes.


[1] Aprendi com o grande Enio Mainardi, há mais de 20 anos, a não me referir a determinadas pessoas com maiúsculas.