A mulher e o mercado de trabalho: Um estudo de caso

Por Bernardo Guimarães Ribeiro, Membro do Ministério Público, autor do livro Nadando Contra a Corrente e membro fundador do Instituto Conservador e Liberal Antônio Lacerda.

A mulher e o mercado de trabalho. Um estudo de caso de como a ordem espontânea elimina a discriminação

Você já deve ter ouvido falar – e certamente acredita piamente – que a mulher, em geral, tem mais dificuldade em alcançar postos de trabalho por sua condição de mulher. Mas o que há de verdade e de mito nessa afirmação?

A primeira lenda sobre o tema é atribuir o fato ao machismo. Se você, que está lendo esse texto, for uma mulher, responda: Contrataria uma babá gestante de 6 meses para cuidar do seu filho ou preferiria, ao invés dela, uma mulher sem pretensão de engravidar? Se você foi mesmo honesta, preferiu a segunda alternativa. Mas por quê? Você preferiu um homem? Não. Sua escolha não teve relação com o machismo, mas com uma questão pragmática: você e seu marido trabalham o dia inteiro e não podem dar-se ao luxo de ficar um dia sequer sem alguém cuidando do seu filho pequeno. Olhando por esse ângulo talvez você entenda que uma empresa não é tão diferente de você, certo? Mas vamos avançar...

A conclusão de que a dificuldade maior da mulher em busca de um emprego não guarda relação direta com o machismo, não resolve, entretanto, o problema existente, no que concordamos com algumas reivindicações. Onde, então, reside essa solução? Pesquisas de órgãos oficiais do Estado mostram que, nas últimas décadas, as mulheres tem registrado uma curva de crescimento intelectual mais acentuada que o homem. Isso se comprova, por exemplo, com seu início mais precoce na escola, menor evasão (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/545/cd_2010_educacao_e_deslocamento.pdf) e ainda maior tempo de estudo (http://brasilemsintese.ibge.gov.br/educacao/anos-de-estudo-e-sexo.html). Além disso, as mulheres hoje são maioria disparada nos cursos superiores e de extensão: entre o número de matrículas, elas correspondem a 53,9% dos alunos. Se considerarmos o total de alunos que se formam, esse percentual sobe ainda mais, pois são 60% de mulheres contra 40% de homens (http://portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/212-educacao-superior-1690610854/21140-maioria-e-feminina-em-ingresso-e-conclusao-nas-universidades).

Essa maior qualificação tem modificado a estrutura de pessoal das empresas privadas, que, a despeito das desvantagens mencionadas acima, tem optado muitas vezes por mulheres em seus quadros. Nenhuma medida governamental coercitiva se fez necessária. Temos apenas uma autorregulação operada pelo mercado através da elaboração do cálculo custo x benefício, isto é, o proveito econômico tirado de uma mulher mais qualificada excede eventual dispêndio com dias não trabalhados ou afastamentos.

Mas também é verdade que nem todas as mulheres em idade fértil atingem qualificação tão elevada a ponto de fazer uma empresa preterir um homem, quase sempre mais disponível. Sim, para driblar essa dificuldade, mulheres de todas as classes e profissões migraram radicalmente para o serviço público, setor no qual, diante da total ausência de competição e necessidade de lucro, acomodam-se com maior facilidade mulheres interessadas em ter filhos. Para se ter uma ideia, em 1986 as participações de cada sexo estavam igualmente divididas; apenas 31 anos mais tarde, a proporção já estava em 59,3% de mulheres contra 40,7 de homens (http://www.ipea.gov.br/atlasestado/download/154/tres-decadas-de-funcionalismo-brasileiro-1986-2017). Detalhe: com tendência de ampliação da discrepância!

O que esses números nos dizem? Que o machismo acabou? Talvez, não. Por outro lado, claramente explicam uma gigantesca adaptabilidade da mulher ao mercado de trabalho, atendendo às SUAS predileções e escolhas. Mesmo tratando-se do setor público, este, como um todo, também é parte do mercado de trabalho, porquanto constitui um nicho de atuação de diversas profissões. A ordem espontânea é exatamente isso: uma miríade de possibilidades em que as pessoas conseguem desenvolver suas potencialidades e desejos de forma livre, sem coerção. A predominância feminina na esfera pública só comprova o mérito da sua obstinação. Curioso é que, ao tratar da hegemonia dos homens em algumas carreiras, a meritocracia é ignorada em nome do fantasmagórico machismo. Imaginar algo diverso disso equivaleria a legitimar os homens, doravante, a pleitear cotas no serviço público, tendo em vista a dominação feminina dos últimos anos e que, certamente, ainda irá se ampliar.

É tão absurda a ideia de cotas para homens no serviço público, como o é aquela que pleiteia cotas para mulheres em cargos de direção, em partidos políticos, nas polícias ou mesmo para cargos eletivos. Antes que você tire conclusões açodadas ou deixe que concluam por você, vale a pena sempre analisar os números e, principalmente, o que eles podem esconder. Mais que isso: sempre analise pesquisas que investiguem a vontade das pessoas de carne e osso. É simplesmente rasteiro afirmar que as empresas de engenharia contratam menos mulheres se você não pergunta às mulheres quantas delas gostam da atividade de campo na engenharia. É ridículo reclamar contra a menor quantidade de policiais militares mulheres quando quase a totalidade delas prefere apenas trabalhar na área administrativa das PMs – afinal, quantos cargos internos para salas com ar condicionado existem mesmo nas polícias?

Tudo isso explica como a realidade é mais ampla e complexa do que aquela reportagenzinha encomendada para reforçar estereótipos machistas no mercado de trabalho, enfiando goela abaixo das pessoas mentiras deslavadas como a tal diferença de remuneração entre os sexos. Mas esse é um outro assunto. Hoje eu só queria demonstrar como a ordem espontânea logra adaptar as contingências sociais, eliminando até a discriminação.

#Machismo #Feminismo #Mercado #Mulher #Trabalho

0 visualização

©2020 por Diário do Observador.