Postagem Observatório

A carne de hoje é o leite de 2016?

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Quem foi ao supermercado - ou, para quem ainda não foi, acompanhou o noticiário - nos últimos dias deve estar incomodado com a forte escalada dos preços da carne bovina (algo que mencionei em meu último artigo) nas gôndolas. A ideia de que pesará mais no bolso o churrasco de final de ano da firma ou com os amigos e familiares, é, certamente, um bocado indigesta.

E a indigestão pode ser ainda pior, caso se confirme a declaração de Tereza Cristina, ministra da Agricultura, de que o preço não voltará ao patamar de antes. E, se pensarmos no histórico recente de determinados produtos não menos importantes para a mesa do brasileiro, o alerta tem, sim, fundamento.

Para isso, vamos voltar a 2016: naquele ano, bastante tumultuado no cenário político-econômico pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, início do governo de Michel Temer e por uma das piores recessões da história republicana, o leite, item quase indispensável para as crianças e/ou para o café da manhã, teve uma disparada em seus preços naquele ano: segundo o IBGE, os preços deste e de seus derivados subiram em torno de 10% (o longa vida teve alta de 15% naquele mesmo período). Já o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), que faz o levantamento do preço dos valores no atacado, indicou alta de 60% no acumulado do ano até junho.

Na época, o litro do leite longa vida (o de caixinha) chegou a se aproximar da marca dos R$ 4 (quando não ultrapassava). Para se ter uma ideia, era mais vantajoso comprar o litro da bebida láctea sabor chocolate, uma vez que o preço era ligeiramente mais barato (sem falar que economizava ao não gastar com achocolatado).

Já o queijo mussarela, naquele mesmo período, ultrapassou a marca dos R$ 30 o quilo, chegando, no auge, a ultrapassar os R$ 35. Os valores do leite e de seus derivados, com o tempo, e devido a outros fatores (entre eles o fim do período seco, característico do Centro-Sul brasileiro no segundo e terceiro trimestre), acabaram caindo, mas não voltaram mais ao status quo ante. Exatamente como no alerta que a atual titular da pasta de agricultura está fazendo em relação à carne.

Para que entendam o paralelo entre o quadro atual e o observado há três anos, resolvi comparar a evolução dos preços do litro do leite e da arroba do boi gordo desde janeiro de 2005. Para o primeiro indicador foi escolhido o preço bruto mínimo do leite ao produtor, apurado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). Já para o segundo foi escolhido o preço da arroba do boi gordo no final de cada mês, apurado pela mesma instituição.

A fim de trazer os preços de ambos os produtos para valores reais, utilizou-se o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medido pelo IBGE, utilizando como referência o mês de outubro de 2019 (último mês apurado da série de preços para o leite). Em seguida, as séries de preços foram convertidas, utilizando o valor-base de 100 a partir de janeiro de 2005. O resultado está neste gráfico abaixo (desde já, agradeço ao Renan Rodrigues Torres, estudante de economia da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, por ter colaborado comigo na tarefa de fazer a correção dos preços):

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Note que, até o ano de 2015, as curvas de preços do leite e do boi gordo andavam lado a lado, ainda que, no caso do primeiro, ocorressem períodos de salto nos valores, enquanto neste último a evolução era mais comportada. No entanto, a partir de 2016, o preço do leite começou a se desprender em relação ao do boi gordo, mantendo-se permanentemente acima, salvo um curtíssimo período entre 2017 e 2018. Justo no mesmo período em que ocorreu a grande escalada nos preços do leite nos supermercados, seguida de uma queda, "normalizando-se" em um patamar mais elevado.

Infelizmente, devido ao fato da série de preços para o leite não ter ainda o valor correspondente ao mês de novembro, tivemos que limitar a série do boi gordo para o mês de outubro. No entanto, tendo em vista que o valor nominal deste último saltou de R$170,70 a arroba em outubro para R$231,35, é razoável que a curva de preços sofra um salto, podendo, inclusive, ultrapassar a do leite (isso deverá ser apurado posteriormente).

Além disso, dada a conjuntura do momento - dólar valorizado frente ao real e alta demanda externa pela carne bovina brasileira -, esse período de preços mais elevados tende a durar um pouco mais e, mesmo quando recuar, a "nova normal" será mais elevada, corroborando com as recentes declarações da ministra da Agricultura.

Sendo assim, não é difícil pensar na hipótese de que a carne bovina está passando pelo mesmo "ajuste" de preços que o leite passou em 2016. Se as duas curvas de preços voltarão a andar juntas como no passado, essa já seria uma especulação mais difícil de fazer.

Até a próxima.