Postagem Observatório

A arte de opinar sem ler

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Creio que todos sabem, minimamente, quem é Felipe Neto, o influenciador digital que, nas últimas semanas, ganhou notoriedade pelo fato de, diante de uma ação estrategicamente desastrada de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, em retirar de circulação revistas em quadrinhos com cenas de beijo homossexual, acabou adquirindo estas e distribuindo-as gratuitamente em protesto contra a "censura" do alcaide da capital fluminense.

A repercussão nacional disso foi bastante expressiva, tendo em vista que o empresário e youtuber foi brindado com uma entrevista no Valor Econômico, um dos principais jornais de economia do Brasil. Só resta saber o motivo - ou os motivos - de um jornal destinado a cobrir economia dê tanto espaço para alguém por um assunto que não seja economia.

Creio, também, que, se não todos, muitos sabem que Felipe Neto, volta e meia, costuma dar pitacos sobre conceitos que ele não sabe. Posso citar o exemplo dos protestos de 15/05, que, em resposta a um comentário - no contexto, infeliz e não menos incendiário - do presidente Bolsonaro em chamar os manifestantes contra os contingenciamentos de gastos na educação de "idiotas úteis", o influencer resolveu lacrar, dizendo que ainda achava melhor que um integrante da família Bolsonaro, chamando-o de "idiota inútil".

Evidentemente, como apontei em meu comentário na ocasião, ele demonstrou não saber o conceito de "idiota útil", que, para não delongar muito na explicação, é alguém que, não tomando conhecimento do que está em jogo, apoia uma determinada causa e, sem mais ou menos, é deixado de lado no processo revolucionário. Em suma - e dizendo de uma maneira até vulgar: é uma "camisinha" que, ao final do êxtase do "vamos mudar tudo", vai para o lixo. O mesmo destino do "idiota inútil". Se Felipe Neto acha que ser usado é melhor, cabe a ele definir o quando isso é digno. Honestamente, não sei se seria.

Mas ontem, no embalo da fama que ganhou recentemente como ativista político, o influenciador digital deu um passo além: ele resolveu opinar sobre um tema sem ler a respeito. Não, não estou falando em opinar sem entender, mas sim sem ler, algo básico para se tentar chegar a uma argumentação.

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Repare que o argumento dele, pelo que parece, foi baseado num "gatilho" mental. Talvez ele tenha pensado: "Macri, Netanyahu e Trump são amiguinhos do Bolsonaro, e eles perderam, então só pode ser algo muito bom". Pouco importa se, no caso argentino, o adversário que está a derrotar Macri é Alberto Fernández, candidato à presidente que tem, como running-mate, nada mais nada menos que Cristina Kirchner, ex-presidente do país, envolvida em vários escândalos de corrupção e que só não foi presa devido à imunidade que possui como senadora. Isso sem falar em sua desastrada condução econômica, entregando uma bomba-relógio nas mãos de Macri que, em vez de desarmá-la, acabou explodindo.

No caso de Israel, Felipe Neto não parece ter se dado ao trabalho de saber quem é o principal adversário de Netanyahu, Benny Gantz, que divide com Yair Lapid a liderança da coligação Azul e Branco. Gantz foi simplesmente o comandante do Exército israelense durante parte do governo Netanyahu, e suas propostas na área de segurança e defesa - uma questão recorrente no país - possuem diferença praticamente nula em relação a Bibi. A principal diferença está na pauta de costumes e na relação entre o Estado e a religião predominante, o judaísmo.

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Não sendo o bastante tentar dar pitaco sobre algo sem ler, ele, como vocês podem ver na imagem acima, acreditou - e, talvez, ainda acredita - que os fatos e as consequências desses são dissociáveis. É como dar uma pistola a alguém de olhos vendados e ela simplesmente resolvesse disparar pelo prazer de escutar o som dos tiros. Pouco importa se, nesse exercício, os disparos atingissem o próprio pé (ou mesmo a cabeça, o que neste caso seria o último disparo).

Qualquer pessoa que tenha acompanhado o desenrolar do cenário político na Argentina sabe que a derrota de Macri significa o retorno do kirchnerismo. Isso não é para ser comemorado. Menos, talvez, para Felipe Neto. Seguindo o brilhante raciocínio à risca, ele também comemoraria a chegada de Stálin como presidente da República, se isso significasse a queda de Bolsonaro. Claro, pouco importaria se, assim como este que vos escreve, ele também pararia num gulag.

Pelo visto, ele só se tocou no tamanho da baboseira dita quando de fato resolveu ler a respeito do que estava opinando, como mostra a sequência abaixo:

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Convenhamos que ele teve, pelo menos, a humildade de fazer mea culpa diante do que disse, mas isso não muda o fato de que essa shitstorm - que não é a primeira dele - poderia ter sido evitada se ele, simplesmente, lesse sobre o assunto o qual estava afim de opinar. E disso se chega a um ponto ainda mais grave: estamos lidando com um sujeito que possui milhões de seguidores nas redes sociais e que se dispõe a formar opinião simplesmente sem ler, baseando-se em meros gatilhos mentais. Algo que seria razoável para um adolescente de 15 anos, não para um marmanjo de 31 (e olha que não me prestava a esse papel quando tinha 15).

Maquiavel dizia que se descobria quem realmente era um homem dando poder a ele. E o pouco poder dado a Felipe Neto mostrou quem ele é: um inconsequente e irresponsável como formador de opinião.

Pelo menos desta vez o "ixxpertinho", pelo visto, passou vergonha.