Postagem Observatório

15 de Novembro: UM DIA INFAME!

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Por Enos Francisco Beolchi

No dia 15 de novembro de 1889, um grupo fracionado de oficiais e cadetes do Exército, sem qualquer apoio popular, de maneira sorrateira e oculta das vistas da população do Rio de Janeiro, mediante um golpe de Estado, colocaram a termo 67 anos de Regime Monárquico no Brasil. Período de formação da Nação, período de desenvolvimento, estabilidade política, estabilidade econômica, moeda forte, soberania, liberdade de imprensa e, sobretudo, respeito às leis!

Por volta de 01h30 da madrugada do dia 17/11, na passagem do domingo para segunda-feira, a Família Imperial foi acordada no palácio, obrigada a rapidamente fazer as malas e embarcar para o exílio.

Na calada da noite, colocaram nosso imperador e sua família em uma carruagem, cuja parelha de cavalos tinha os cascos enrolados em panos, para que a movimentação incomum não despertasse a curiosidade de populares. Seriam levados ao cais Pharoux, que ficava a uma pequena distância do palácio. Na carruagem, se acomodaram a imperatriz, a princesa Isabel (1846-1921), o conde D'Eu (1842-1922), Pedro Augusto (1866-1934), o neto mais velho do monarca, então com 23 anos, filho de sua filha mais moça, Leopoldina, falecida em 1871. Na carruagem também se encontrava a princesa Isabel prostrada de preocupação com seus filhos que naquele momento se encontravam em Petrópolis.

Ao passar pelo Largo do Paço, os soldados apresentaram armas e o imperador respondeu erguendo a cartola, uma cena muito emblemática, que a partir de então, seria negada às gerações vindouras.

No cais, entraram todos em uma lancha do Arsenal de Guerra que os levou ao cruzador Paraíba, onde aguardariam a chegada dos três filhos da princesa e só então navegariam para a Ilha Grande, para embarcar no vapor Alagoas. Como o golpe de Estado havia sido urdido por uma pequena camarilha traidora, o planejamento dos detalhes foi tomado às pressas, por essa razão, o vapor Alagoas, escolhido para levar a Família Imperial ao exílio, ainda estava ao largo e despreparado para a longa viagem.

Foi difícil localizar o vapor Paraíba naquela noite escura e chuvosa e ainda mais difícil, fazer o sr. D. Pedro II (1825-1891) passar da lancha para o cruzador, subindo por uma precária escada sobre o mar agitado.

O tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet (1840-1907) e o conde Mota Maia (1843-1897), médico particular do imperador, tentavam empurrar D. Pedro II da lancha para o navio, mas o imperador, de 63 anos, que em razão da diabetes tinha crises de torpor, fraquejava e oscilava. O oficial Mallet, com horror, contemplava a hipótese de D. Pedro II cair no mar, e caso isso acontecesse, seria praticamente impossível salvá-lo. Mais tarde, o tenente-coronel relatou que, caso o soberano caísse, ele pularia no mar e só sairia com ele salvo ou morreria junto na tentativa, pois preferia morrer a ser acusado como responsável pelo afogamento do monarca.

O imperador permaneceu no tombadilho do cruzador Paraíba até as 10h00 da manhã, sentado sob uma lona que o protegia do chuvisco, aguardando a chegada de seus netos que vinham de Petrópolis. Ao meio dia zarparam para Ilha Grande em uma viagem lúgubre e soturna. "Mas o que fizemos para ser tratados como criminosos?", perguntava a imperatriz D. Tereza Cristina (1822-1889) ao embaixador da Áustria no Brasil, Conde de Weisersheimb, que acompanhou a Família Imperial no cruzador para se despedir. "Não pense muito mal de meu país", afirmou a princesa Isabel ao austríaco. "Eles estão agindo como num acesso de loucura". Além da Família Imperial, seguiram juntos no vapor, por amizade, e não por imposição republicana, o barão (1836-1906) e a baronesa (1849-1931) de Loreto, o conde Mota Maia, o barão (1807-1896) e a baronesa de Muritiba e o grande engenheiro André Rebuças (1838-1898), amigo abolicionista, neto de uma escrava alforriada, com quem o imperador se deleitava em conversar.

O MOVIMENTO REPUBLICANO

O movimento republicano no Brasil não era nada popular; pelo contrário, era restrito a um grupo de ricos fazendeiros paulistas e mineiros, insatisfeitos com a forte adesão da Família Imperial à causa abolicionista. Tal insatisfação, motivou esses cafeicultores a lançarem ainda em 1870, o Manifesto Republicano, iniciativa que posteriormente traria como desdobramento, a fundação do Partido Republicano em 1873 e do Clube Militar, em 1887. A ideia republicana estava longe de ter apoio ou participação popular! Tanto é verdade que em 1889, três meses antes do golpe republicano, esse partido nanico conseguiu eleger apenas dois deputados em todo o Brasil.

DEODORO DA FONSECA

O marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892) era monarquista convicto e amigo do imperador D. Pedro II, que no passado, com seus proventos pessoais, havia custeado os estudos do jovem Deodoro. Tanto que, em certa ocasião, em carta escrita ao seu sobrinho, Clodoaldo da Fonseca (1860-1936), também oficial do Imperial Exército Brasileiro, Deodoro escreveu: "Meu sobrinho, república no Brasil é sinônimo de desgraça! Não pode dar certo! Se não está bom com a Monarquia, será o fim com a república!"

ANTECEDENTES AO GOLPE

Ocorre que em 1883, surgiu o episódio que ficou conhecido como "questão militar", na qual o marquês de Paranaguá (1821-1912) havia proposto no Congresso a discussão de uma lei referente à reforma do Montepio Militar, à época, considerada prejudicial aos interesses da classe.

Ainda em 1883, Deodoro havia sido nomeado comandante do Exército no Rio Grande do Sul, e posteriormente seu governador interino. Nessa época ele se apaixonou por uma bela viúva, Adelaide Andrada, conhecida como baronesa do Triunfo, mas acabou perdendo o seu amor para o político gaúcho e conselheiro do Império, Gaspar da Silveira Martins (1835-1901). Essa disputa levou o imperador a transferi-lo para o Rio de Janeiro e posteriormente ao Mato Grosso, onde deu baixa do Exército, indo para a reserva. Passados pouco mais de cinco anos, em momento crucial, essa desilusão amorosa seria utilizada de maneira ardilosa e matreira pelo pequeno grupo de republicanos para encolerizar os ânimos de Deodoro contra o Império.

Em 1888 aconteceu uma desavença entre o Gabinete de Ministros do Império e o Exército, que se agravou em 1889 com a nomeação do visconde de Ouro Preto (1836-1912) para presidir o gabinete (equivalente ao primeiro-ministro). Jornalistas, cadetes e oficiais republicanos passaram a tecer uma verdadeira rede de boatos no Rio de Janeiro, dando conta de que Deodoro da Fonseca, então presidente do Clube Militar, seria preso por manifestações públicas contra o presidente do Conselho de Ministros.

Em 15 de novembro de 1889, os cadetes buscaram Deodoro em casa, encontrando-o acamado e gravemente enfermo. Montaram-no em uma mula e saíram às ruas, depondo o gabinete do visconde de Ouro Preto. Em seguida, no Campo de Santana, atual Praça 15 de Novembro, os cadetes deram vivas à República, mas para surpresa de todos, o enfermo marechal gritou: "Viva o Imperador!!! Viva Dom Pedro II!!!" E em seguida retornou à sua residência.

D. Pedro II encontrava-se em Petrópolis, e ao tomar conhecimento dos acontecimentos no Rio de Janeiro, resolveu retornar à corte, sendo aconselhado pelo genro, conde D'Eu, estrategista e de formação militar francesa, a ir para Minas Gerais, onde além de ser muito querido pela população, teria também a topografia montanhosa favorecendo sua proteção, mas o velho imperador, confiando na honra, na lealdade e na amizade do oficial, voltou ao Rio de Janeiro.

No Paço Imperial, D. Pedro II aceitou a deposição de Ouro Preto, porém, ao darem a notícia a Deodoro, Benjamim Constant (1836-1891) e o Major Frederico Solon ([1839-1900] genro do escritor Euclides da Cunha [1866-1909]) contaram-lhe, maliciosamente, que o novo presidente do Conselho de Ministros seria seu desafeto amoroso, Gaspar da Silveira Martins; furioso, Deodoro disse: "Esse não! Me dê essa porcaria aí que eu vou assinar!!!" Dizem que ao sair de casa pela segunda vez, Deodoro proclamou provisoriamente a República; de qualquer maneira, o texto oficial da proclamação iniciava assim:

"Fica proclamada provisoriamente e decretada como forma de governo da Nação Brasileira — A República Federativa".

A expressão – provisoriamente – previa que em um futuro próximo, seria realizado um plebiscito para a consulta popular sobre a mudança de regime. A insegurança republicana era tal, que esse plebiscito só foi realizado em 1993, após 104 anos de indução de amnésia histórica. Vale ressaltar, que esse plebiscito só foi realizado graças à oportuna iniciativa do tataraneto de Dom Pedro II, o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança (1938- ), Chefe da Casa Imperial e Imperador "de jure" do Brasil, que no dia 7 de setembro de 1987, enviou aos deputados e senadores responsáveis pela elaboração da atual Constituição Federal, a famosa Carta aos Constituintes.

Basicamente são esses os fatos...

E assim teve início a fase republicana no Brasil, que até o momento, teve 6 constituições, 9 diferentes moedas, 6 golpes de Estado, 6 fechamentos de Congresso, 13 presidentes que não concluíram o mandato, 1 plebiscito procrastinado (Regime de Governo) e outro plebiscito ignorado (Lei do Desarmamento)...

Além disso, o cientificismo positivista que capitaneou a implantação da República, pela sua natural baixa imunidade, de maneira inadvertida e inconsciente, cede, de tempos em tempos, a Pátria como laboratório aos movimentos de natureza marxista com seus desastrosos resultados.

E assim foi, e assim tem sido, depois que deportaram o magnânimo D. Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.

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Enos Francisco Beolchi

Operador (autônomo) no mercado de capitais e membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG/SP, onde no momento ocupa a função de Assessor de Planejamento, Política e Estratégia